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Similaridades no diagnóstico de maus-tratos nas crianças e nos animais


Pesquisas das ciências humanas e sociais evidenciam a existência de uma forte relação entre a ocorrência de violência humana e os maus-tratos aos animais. A Teoria do Elo, conhecida internacionalmente sob o nome “The Link”, propõe que em uma família em que um indivíduo é agredido, os outros membros estão em risco, incluindo os animais de estimação 1,2. A suspeita de abuso infantil pode ser reforçada se o animal da família também apresenta sinais indicadores de maus-tratos 3.

Os sinais de maus-tratos apresentados por crianças e animais podem ser semelhantes: as lesões apresentam o mesmo padrão; os relatos dos pais da criança ou responsáveis pelos animais não condizem com as lesões apresentadas; e nos dois casos, a presença de lesões múltiplas e em graus diferentes de cicatrização é comum 3-8.

Os animais, assim como as crianças, são suscetíveis por serem mais fracos e indefesos, considerados propriedades e necessitarem de disciplina. Os guias de identificação de maus-tratos às crianças serviram de base para o diagnóstico de traumas não acidentais em animais de companhia, e os sintomas da Síndrome da Criança Espancada orientaram a medicina veterinária para a mesma designação nos animais, Síndrome do Animal Espancado, uma vez que os mesmos sinais eram observados 2. O estudo comparativo dos padrões característicos dos traumas não acidentais nas crianças e nos animais domésticos pode auxiliar no diagnóstico de tal trauma, bem como auxiliar na identificação de famílias violentas em que animais e crianças estão em risco.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria “os maus-tratos são a fonte de todas as formas de violência, pois, a depender da idade, da intensidade e do tempo de duração, podem desestruturar a formação da personalidade da criança, levando a danos ao seu desenvolvimento físico, moral, intelectual ou psicossocial e determinando falhas na formação ou a destruição dos valores morais mínimos para a convivência consigo mesma e com o outro” 10. Existem quatro categorias de violência, que podem coexistir: o abuso físico, o psíquico, o sexual e a negligência. Os sinais gerais de maus-tratos às crianças, que surgem em qualquer idade, incluem mudanças de comportamento (tristeza constante, desinteresse pelas atividades próprias da idade), distúrbios do sono, apatia, irritabilidade e atraso no desenvolvimento psicomotor 10,11. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) relaciona a violência sofrida na infância ao maior risco de comportamentos nocivos no futuro, como transtornos depressivos, comportamento agressivo/violento e suicídio 12.

Maus-tratos aos animais de companhia refere-se a “causar dor fisiológica ou psicológica desnecessária, sofrimento, estresse, privação e/o a morte de um animal, de forma intencional, maliciosa ou irresponsável (não intencional ou por ignorância)”. Podem ser classificados como: abuso físico, sexual, psicológico e negligência 13.

Pouco se conhece a respeito dos efeitos da violência nos animais. Porém, sabe-se que cães vítimas de maus-tratos têm taxas significativamente maiores de medo e agressividade dirigida a pessoas e animais desconhecidos, excitabilidade, hiperatividade, hiperapego e busca de atenção, latido persistente e comportamentos estranhos ou repetitivos, demonstrando que, assim como nas crianças, nos animais existem sequelas psicológicas do abuso 14.

Os fatores de risco para identificar um adulto agressor incluem: consumo de álcool e drogas, maus-tratos sofridos na infância, baixa escolaridade e sofrer da Síndrome de Münchausen by proxy. A figura 1 traz as características mais comuns dos agressores de animais e crianças 5,7.

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Agressor do animal 5 Agressor da criança 7
Sexo masculino Maus-tratos sofridos na infância
Usuário de drogas Usuário de álcool e drogas
Pertencente a  segmentos sociais menos favorecidos Baixa escolaridade
Portador de Síndrome de Münchausen by proxy Portador de Síndrome de Münchausen by proxy
Figura 1 – Fatores identificados em agressores de crianças e animais de companhia

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Casos confirmados e suspeitos de agressão contra crianças são de notificação obrigatória por parte dos profissionais 7. No Brasil, no Código de Ética do Médico Veterinário, dentro de seus princípios fundamentais, encontra-se “denunciar às autoridades competentes qualquer forma de agressão aos animais e ao seu ambiente” 15. Porém, a lei não obriga o médico-veterinário a denunciar casos de maus-tratos aos animais.

O diagnóstico de maus-tratos pode ser feito a partir de anamnese, exame físico e exames complementares, tanto para as crianças como para os animais 4,7. No caso das crianças, o médico pode solicitar a avaliação por outro profissional, de preferência um perito do Instituto Médico Legal. A avaliação começa pela observação da atitude da criança: medo, apatia e tristeza são sinais de alerta.

A associação desses sinais com desnutrição, atraso no desenvolvimento, lesões no crânio e na face, arranhões e queimaduras reforçam a suspeita 7. No caso dos animais é possível observar comportamento de medo na presença do proprietário, sendo que o comportamento do animal muda na ausência do mesmo 4.

Os sinais gerais de maus-tratos às crianças e aos animais são lesões incompatíveis com o relato; lesões em várias partes do corpo ou bilaterais; lesões em diferentes estágios de cicatrização; lesões múltiplas; atraso entre a lesão e a procura por atendimento médico 4,7. A figura 2 traz as similaridades entre a violência contra crianças e animais em relação aos indicadores e fatores de risco 3-9.

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Indicadores de abuso infantil e animal 3-9 Fatores de risco infantil 9 Fatores de risco animal 5,8
Relatos discrepantes sobre o trauma Crianças não planejadas Filhotes com menos de 2 anos
Narrativa incompatível com a gravidade Recém-nascidos prematuros Idosos
Recorrência de acidentes Sexo diferente do desejado Machos caninos
Traumas múltiplos Deficiência física Pit Bull
Lesões com estágios evolutivos distintos Deficiência mental Rottweiler
Sinais comportamentais não usuais Portador de anomalias congênitas Bull Terrier
Atraso entre a ocorrência da lesão e a procura por atendimento    
Figura 2 – Similaridade entre a violência contra crianças e os maus-tratos aos animais de companhia em relação aos indicadores e fatores de risco

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Os indicadores para suspeitar de maus-tratos aos animais podem ser categorizados em indicadores que envolvem a família; as características dos animais, do agressor humano e os tipos de lesões (Figura 3) 3-8. A análise desses indicadores auxilia no diagnóstico de traumas não acidentais.

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Categorias Indicadores
Características do responsável  pelo animal e  sua família

• Relatos discrepantes sobre o trauma 5

• Os envolvidos não querem ou não conseguem explicar o que ocorreu 5

• Explicações são vagas 5

• Narrativa não é compatível com a gravidade da apresentação clínica 5

• Não há demonstração de preocupação com o animal – naturalização do trauma 5

• Recorrência de acidentes com animais no ambiente familiar 5

• São acionados distintos serviços de saúde e profissionais para dificultar a detecção das causas reais 5

• Episódios ou mortes violentas entre os membros humanos da família 5

Características  dos animais  envolvidos

• Cães das raças: pit bull, rottweiler e bull terrier 5

• Sexo: machos (caninos) 5,8

• Idade: cães e gatos menores de 2 anos de idade e idosos 5

• Sinais comportamentais não usuais do animal 5

• Agressividade (medo/ dor) 4

• Animal mais confortável longe do dono 3

Características  do agressor  humano

• Sexo masculino 5

• Usuários de drogas 5

• Pertencentes a segmentos sociais menos favorecidos 5

• Portadores de Síndrome de Münchausen 5

Tipos de lesões

• Lesões superficiais: queimadura, ferida incisional, facada, hemorragia conjuntival 3

• Lesões profundas: epistaxe, hematomas, ruptura de músculo abdominal, hemorragia de retina 3

• Lesões toracoabdominais internas: colapso pulmonar, ruptura de fígado, ruptura intestinal 3

• Diferentes estágios de cicatrização 8

• Fraturas múltiplas 8

• Fraturas em mais de uma região do corpo 8

• Fraturas transversas 8

• Fraturas com avançada cicatrização 8

• Fratura de costela 4

• Formação de calo ósseo 8

Figura 3 – Indicadores para suspeitar de maus-tratos aos animais de companhia, segundo características do responsável pelo animal e sua família, dos animais envolvidos, do agressor humano e do tipo de lesões

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É importante que os médicos-veterinários comecem a suspeitar quando as lesões, e o próprio animal por meio do seu comportamento, “contam” uma história diferente a que o proprietário ou responsável está trazendo, quando há discrepância entre o que se vê e o que se fala. Levantar a suspeita de que algo está errado na relação entre a família e o animal é um importante primeiro passo que a medicina veterinária pode começar a dar nesse polêmico assunto, no qual o veterinário tem uma função social indispensável, podendo identificar fatos que levam a detectar violência doméstica com abuso infantil e animal 1,2,16.