
Em 2015 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou parte dos resultados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada no ano de 2013. Pela primeira vez na história do Brasil, o questionário de inquérito sobre saúde continha três perguntas sobre animais de companhia. Com base nessa amostragem, foi possível estimar a proporção de animais de companhia nas áreas urbana e rural, por estados e regiões, e ainda dos que foram vacinados contra raiva no último ano 1.
A pesquisa por amostragem de cães e gatos de 2013
A pesquisa populacional de cães e gatos realizada pelo IBGE por solicitação do Ministério da Saúde em 2013 não foi um censo integral e nacional, como em 2010. Essa pesquisa por amostragem foi realizada por setores censitários, domicílios e moradores (com mais de 18 anos) escolhidos aleatoriamente. A pesquisa abordou percepções do estado de saúde, de estilos de vida, doenças crônicas, acesso e cobertura de serviços de saúde, saúde bucal, acidentes de trânsito e violência, presença de cães e gatos no domicílio, vacinação de animais e dengue. Adicionalmente, foi escolhida uma subamostra para realizar aferições de circunferência e peso, e coletar amostras de sangue e urina. Nos domicílios escolhidos nessa subamostra se fez uma primeira visita para agendar a aplicação de um questionário e a realização das aferições (segunda visita), além da coleta de amostras numa Unidade de Pronto Atendimento (terceira visita).
A justificativa do censo animal na saúde humana
Nos últimos trinta anos, três em cada quatro doenças emergentes têm sido transmitidas por animais (zoonoses). A convergência de pessoas, animais e meio ambiente criou uma nova dinâmica na qual a saúde de cada grupo é obrigatoriamente interligada à dos outros. Os desafios associados com essa dinâmica são árduos, profundos e sem precedentes 2.
Atualmente, 1.461 doenças infecciosas são reconhecidas em seres humanos. Aproximadamente 60% dessas doenças são causadas por patógenos de múltiplos hospedeiros, caracterizados por seu movimento através do limite de espécies. Nas últimas três décadas, aproximadamente 75% das novas doenças infecciosas humanas emergentes foram zoonoses 3.
Entre elas cita-se a aids (o vírus HIV teve origem no vírus SIV de macacos), o vírus do oeste do Nilo, a doença da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina), a gripe aviária e, recentemente, a gripe suína. Desse modo, acima de tudo, conhecer, mensurar e entender a dinâmica dessas populações animais é essencial para entendermos o próprio futuro da saúde humana nos municípios, estados e regiões brasileiras.
O conhecimento do número total de cães e gatos é necessário para calcular medidas de frequência de doenças e coberturas vacinais, em particular nas campanhas anuais de vacinação antirrábica. Em todo o Brasil, em particular nas áreas endêmicas, a vacinação antirrábica é obrigatória, e o Ministério da Saúde utiliza, para sua distribuição e plano de metas, estimativas da população de cães e gatos nessas regiões 4.
A justificativa do censo animal na saúde animal
As estimativas atuais no Brasil são falhas e imprecisas. Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima uma proporção de 10 pessoas para cada cão nos países desenvolvidos (10:1) e 7 pessoas para cada cão em países em desenvolvimento, como o Brasil (7:1), censos por amostragem realizados em diversas partes do país mostram uma quantidade muito maior de cães, proporcionalmente, com média de apenas 4 pessoas para cada cão 5.
Se pensarmos que existem em Curitiba 7 pessoas para cada cão, isso significa que, dos 1.751.907 habitantes 6 da capital, teríamos um total de 264.459 cães. Mas se utilizarmos os resultados obtidos nos censos por amostragem realizados em várias áreas da cidade nos últimos anos, de 4:1, essa proporção é na realidade quase o dobro maior, ou seja, de 462.803 cães. Desse modo, não surpreende que as campanhas de vacinação atinjam percentuais muito próximos ou mesmo superiores a 100% de cobertura vacinal, uma vez que a base de estimativa está incorreta (subestimada). Ou seja, se vacinarmos por estimativa 100% dos cães de Curitiba na proporção de cálculo 7:1, na verdade estaríamos vacinando apenas 57% do total real de cães.
A justificativa do censo animal na saúde única
Os cães e gatos são importantes sentinelas de doenças. A saúde desses animais pode refletir a exposição a que estão sujeitos seus donos, bem como os riscos de doenças. Cães e gatos já são identificados há muito tempo como potenciais “sentinelas” de doenças humanas 7. Os animais de companhia são sentinelas efetivas, pois compartilham o mesmo ambiente que seus tutores; nesse contato íntimo com membros da família, eles frequentemente comem a mesma comida, tomam a mesma água, compartilham as camas e servem como companhia de viagem, o que torna o seu risco de doenças muito similar ao dos seus tutores.
Desse modo, a saúde do cão e do gato pode ser um espelho da saúde das pessoas, ou do risco de doenças da casa em que moram. O controle de populações de cães e gatos deve ter por base dados corretos dessas populações animais em cada município da nação. A maioria das comissões municipais de saúde dos 28 municípios da região metropolitana de Curitiba, por exemplo, incluiu o problema de controle de cães de rua em seus debates, o que parece ser uma constante em outras cidades paranaenses e capitais brasileiras. Não se existe atualmente um estudo de perfil da população e do número per capita de cães e gatos, sua correlação com a renda familiar e outros dados socioeconômicos importantes para relacionar a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental.
Estudos recentes 8,9 mostraram que os cães comunitários encontrados em terminais de ônibus urbanos de Curitiba podem ser considerados sentinelas ambientais para leishmaniose, toxoplasmose, doença de Chagas e neosporose, doenças veiculadas por vetores como Dirofilaria immitis, Ehrlichia spp. (E. canis, E. chaffeensis e E. ewingii), Borrelia burgdorferi sensu stricto (s.s.) e Anaplasma spp. (A. phagocytophilum e A. platys), e ainda Babesia spp., Rickettsia spp., Hepatozoon spp., a própria Leishmania spp., Neorickettsia risticii, Bartonella spp., Mycoplasma haemocanis e ‘Candidatus Mycoplasma haematoparvum’.
Além disso, o hemograma e o perfil bioquímico completos desses animais podem demonstrar contaminação ambiental por agentes físicos e químicos, particularmente em áreas insalubres, como alguns desses terminais de ônibus, onde circulam diariamente mais de 100 mil usuários 10.
A justificativa do censo animal para a demografia populacional
Os cães e gatos são hoje parte integrante da família brasileira. Recente estudo demonstrou que cães e gatos estão na maioria das casas em Curitiba e na região metropolitana, com aumento dessa população em edifícios na área urbana da cidade, o que parece ser uma tendência nacional crescente 5. Apenas com um estudo amplo, geral e simultâneo como o censo do IBGE 2020 poderemos ter dados reais e comparativos de cada município, estado e região brasileira, de modo a controlar essas populações de maneira específica, atendendo às necessidades de cada perfil regional.
Essas populações de entes familiares “não humanos” vêm crescendo no mundo todo, muito embora seu monitoramento se baseie atualmente apenas em estimativas de correlação tendo por base a população humana, como já foi exposto acima. A dinâmica da população animal de companhia, nas próximas décadas e séculos, pode ser crucial para entendermos as relações entre as pessoas e seus animais de companhia.
A proposta tem amplo apoio de diversos órgãos e instituições brasileiras, incluindo o próprio Ministério da Saúde. O assunto da inclusão do número de cães e gatos no censo IBGE 2010 não é recente. Vários órgãos governamentais, instituições de pesquisa e universidades têm solicitado reiteradamente a inclusão de cães e gatos no censo nacional.
Dentre vários temas, sugeriu-se a inclusão de animais domésticos domiciliados (número de cães e gatos). Embora a base dos questionários e questões a serem investigadas pelo IBGE tenha incluído relevância, pertinência e aplicabilidade, não houve um estudo mais amplo acerca dos animais de estimação e de seu impacto na saúde pública e no bem-estar da população brasileira. Segundo uma revisão mais ampla feita na classe veterinária, o questionamento teria tanto ou mais impacto em saúde e bem-estar da população humana que questões como a posse de computador e o acesso à internet 10.
O crescimento vertical (edifícios) na capital paranaense parece não ter alterado a proporção de cães:gatos 11, apesar de menor razão pessoa:cão nas casas (2,99:1) que em apartamentos (13,05:1) e menor razão pessoa:gato nas casas (20,45:1) que nos apartamentos (86,38:1). Apesar disso, a razão cão:gato calculada para as casas (6,82:1) foi quase idêntica à dos apartamentos (6,61:1), mostrando que o curitibano optou por manter o cão de companhia ou de menor tamanho 11. Situações como essa podem acontecer potencialmente em outros grandes centros e capitais estaduais brasileiras, o que torna urgente a realização do censo geral de cães e gatos.
Considerações finais
Em resumo, duas perguntas simples (com respostas numéricas de 0 a 99) poderiam ajudar a resolver esses problemas em todos os municípios e estados brasileiros. Com essas duas perguntas, poderíamos avançar muito nesses assuntos, fazendo do Brasil um modelo mundial na prevenção de zoonoses e outros agravos, na dinâmica populacional, no bem-estar animal e na guarda responsável de cães e gatos.
Apenas duas questões
• Quantos cães você tem em casa? __
• Quantos gatos você tem em casa? __
Referências
01-JUNQUEIRA, A. N. N. Características da população de cães e gatos domiciliados do Brasil. 2017. 27 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Animal) – Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Universidade de Brasília, Brasília, 2017.
02-GRISOTTI, M. Governança em saúde global no contexto das doenças infecciosas emergentes. Civitas – Revista de Ciências Sociais, v. 16, n. 3, p. 377-398, 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.15448/1984-7289.2016.3.23418>. Acesso em 26 de novembro de 2017.
03-SANTOS, J. L. F. Doenças emergentes: fatores demográficos na complexidade. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS, 15., 2006, Caxambu, MG. Anais… Caxambu: Caxambu: ENEP, 2006.
04-ROCHA, S. M. ; NEVES, B. M. C. ; OLIVEIRA, S. V. Estimativa populacional canina em campanhas antirrábicas. Saúde (Santa Maria), p. 81-90, 2016. doi: 10.5902/2236583415590.
05-BIONDO, A. W. ; KOBLITZ, E. ; UTIME, R. ; BONACIM, J. E. ; FEITOSA, C. ; VALEIXO, M. ; MOLENTO, C. F. M. Owned and semi-owned dogs census in Curitiba and surroundings, Brazil. In: ISAE NORTH AMERICAN REGIONAL MEETING, 2006, Vancouver, Canada. Proceedings… Vancouver: ISAE, 2006. p. 37.
06-IBGE 2010. População no último censo. Curitiba, 2017. Diponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pr/curitiba/panorama>. Acesso em 26 de novembro de 2017.
07-SCHMIDT, P. L. Companion animals as sentinels for public health. The Veterinary Clinics of North America. Small Animal Practice, v. 39, n. 2, p. 241-250, 2009. doi: 10.1016/j.cvsm.2008.10.010.
08-CONSTANTINO, C. ; PELLIZZARO, M. ; PAULA, E. F. E. ; VIEIRA, T. S. W. J. ; BRANDÃO, A. P. D. ; FERREIRA, F. ; VIEIRA, R. F. C. ; LANGONI, H. ; BIONDO, A. W. Serosurvey for Leishmania spp., Toxoplasma gondii, Trypanosoma cruzi and Neospora caninum in neighborhood dogs in Curitiba, Paraná, Brazil. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 25, n. 4, p 504-510, 2016. doi: 10.1590/s1984-29612016062.
09-CONSTANTINO, C. ; PAULA, E. F. E. ; BRANDÃO, A. P. D. ; FERREIRA, F. ; VIEIRA, R. F. C. ; BIONDO, A. W. Survey of spatial distribution of vector-borne disease in neighborhood dogs in southern Brazil. Open Veterinary Journal, v. 7, n. 1, p. 50-56, 2017. doi: 10.4314/ovj.v7i1.7.
10-BARRETTO, A. V. P. Controle de população de cães e gatos. Clínica Veterinária, ano XIV, n. 81, p. 14-15, 2009. ISSN: 1413-571x.
11-BIONDO, A. W. ; MARTINS, C. M. ; FERREIRA, F. Dog: cat population ratio is interestingly similar in houses and apartments of Southern Brazil. Preventive Veterinary Medicine, v. 114, n. 3-4, p. 285, 2014. doi: 10.1016/j.prevetmed.2014.03.001.