Aplicação de novos termos no vocabulário veterinário e o relacionamento com os clientes

Nossa classe veterinária é diariamente inundada por uma grande carga de informações veiculadas pela web e por meio de aplicativos, que rapidamente circulam e são repassadas entre os colegas. Esse dinamismo permite rápido acesso a novos produtos e serviços, como, por exemplo, ferramentas diagnósticas e abordagens terapêuticas, e ainda nos habilita a discutir e interagir com colegas e clientes de forma bastante ágil.
Porém, apesar de estarmos tão permeáveis ao novo, ainda mantemos alguns termos em nosso linguajar que desde sempre soaram de modo natural no discurso veterinário, mas cujos significados merecem uma reflexão, como, por exemplo, o que hoje chamamos de “proprietário” e o termo “sacrifício”, utilizado como sinônimo de eutanásia.
No Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a palavra “proprietário” tem como definição “aquele a quem uma coisa pertence como propriedade”. Não discordamos da afirmativa – um animal de estimação é um pertence de quem o possui como tal; porém, também não podemos discordar de que o status que cães e gatos vêm adquirindo atualmente torna essa definição questionável. Hoje eles são muito mais do que algo que as pessoas têm por necessidade ou por interesse; eles foram aceitos e incorporados como membros da família, como um “semelhante”.
Recentemente temos ouvido colegas utilizarem o termo “tutor” ou “responsável” no lugar de proprietário, e tenham certeza de que os clientes vêm nisso uma diferença na forma de olhar a configuração tutor/paciente. Um tutor é “aquele a quem está confiada uma tutela”, é o responsável pela proteção e pelo amparo da vida do tutelado, com condições morais e/ou materiais de assumir o compromisso de cuidar.
O sentido de posse da palavra “proprietário” dá a impressão, num sentido figurado, de que os animais assumem uma posição de objeto ou bem – muito distinta da de companheiros participativos que vemos nas famílias atuais. Além disso, acreditamos que o uso mais frequente dos termos “tutor” e “responsável” reforça o conceito de responsabilidade, amparo, guarda e participação nas diversas decisões da família quanto aos cuidados relativos ao companheiro animal.
Outra palavra que merece revisão em nosso linguajar é o termo “sacrifício” que muito frequentemente tanto nós, médicos-veterinários, como também os leigos, utilizamos como sinônimo de eutanásia.
Por definição, sacrifício animal é o ato de ofertar solenemente uma vítima a uma divindade, por meio de imolação simbólica ou real. Define-se imolar por matar em sacrifício, matar como vingança ou desforra, assassinar, causar dano, prejudicar. Assim, conceitualmente, o termo “sacrifício” não parece nem um pouco adequado para o que, em grego, significa uma boa morte. A prática da eutanásia é uma permissão legal e ética em nossa classe. Por isso mesmo, devemos nomeá-la e compreendê-la sem analogias ou mistificações.
A adequação do nosso discurso profissional àquilo que de fato queremos dizer é também uma forma de atualização e diferenciação do profissional veterinário.