XX Simpósio Internacional de Leishmaniose Visceral Canina

Nos dias 9 e 10 de novembro de 2019, em Belo Horizonte, MG, ocorreu o XX Simpósio Internacional de Leishmaniose Visceral Canina. Há 20 anos o mesmo grupo que organiza o Simpósio vem fomentando a pesquisa e a informação científica. Desde 2011, o grupo constituiu o Brasileish e segue promovendo a pesquisa e a orientação ao manejo clínico de leishmanioses na medicina veterinária do Brasil.

A criação do Brasileish foi incentivada pelo contato de brasileiros com o LeishVet, grupo europeu de especialistas em leishmanioses, nas edições do WorldLeish, congresso mundial de leishmanioses. Desde então vários membros do LeishVet já vieram ao Brasil ministrar palestras nos simpósios do Brasileish.

Este ano, o convidado internacional foi o francês Patrick Bordeau, da École Nationale Vétérinaire, Agroalimentaire et de l’Alimentation de Nantes-Atlantique (Oniris), Nantes. Sua palestra tratou a importância da leishmaniose felina, assunto que faz parte das diretrizes do LeishVet. Ao falar da leishmaniose canina, ele destacou a inclusão do alopurinol no tratamento de cães. Na tabela de estadiamento da enfermidade, conforme diretrizes do Leishvet, o alopurinol é recomendado tanto nos casos graves quanto nos moderados (http://www.leishvet.org/wp-content/uploads/2018/09/PO-Guidelines.pdf).

A leishmaniose felina foi abordada pela dra. Ivete Lopes de Mendonça, da UFPI. Em sua palestra, ela destacou que na região de Teresina, PI, muitos tutores, por conta da leishmaniose, substituíram a guarda de cães pela de gatos. Em 18/2/2019, ela presidiu a banca de defesa de doutorado de Joilson Ferreira Batista, que teve como título “A leishmaniose visceral em gatos domésticos (Felis catus) em área endêmica no Brasil”:

Segundo a dra. Mendonça, “foram examinados 307 animais, que foram submetidos a anamnese para verificar a ocorrência de sinais clínicos relacionados à leishmaniose, coleta de sangue para exame hematológico, quantificações bioquímicas, sorologia para retrovírus e para leishmaniose, aspirado de linfonodo poplíteo e medula óssea e raspado de pele com lesão para confirmar a infecção por meio da pesquisa direta de leishmania. A leishmania isolada dos gatos foi submetida a estudos moleculares (PCR-RFLP e sequenciamento) para identificação das espécies, e 12 dos animais infectados foram submetidos a xenodiagnóstico para verificar a capacidade de infectarem o vetor. Um dos gatos com leishmaniose visceral (LV) e um cão saudável foram utilizados para testar a possível transmissão da doença do gato para o cão. O estudo revelou que os gatos se infectam por L. infantum, e observou-se uma prevalência de 6,5% no exame parasitológico, 5,5% no Elisa e 9,1% no TR DPP®. Também se observou que os gatos infectados tinham ampla disseminação em todas as zonas demográficas de Teresina. Quanto às alterações clínicas, as mais frequentes nos animais com LV foram linfonodo aumentado, alopecia, emagrecimento, lesões e nódulos na pele. No hemograma, observou-se que os gatos com L. infantum apresentaram valores de hemácias e hematócrito bem inferiores quando comparados aos animais não infectados.

Na identificação das espécies de Leishmania dos 20 gatos infectados observou-se que as características moleculares dos parasitos eram compatíveis com a espécie L. infantum. Além disso, o sequenciamento apontou não haver diferença entre os parasitos isolados de gatos e os de cães publicados no GenBank. Dos 12 animais com L. infantum submetidos ao xenodiagnóstico, 8 infectaram o vetor (67%), e a transmissão da LV do gato para o cão foi confirmada. Esse é o primeiro estudo sobre os aspectos epidemiológicos da LV em gatos no Nordeste brasileiro, onde se encontrou elevada prevalência da doença nos gatos de Teresina-PI. Além disso, se demonstrou que os animais infectados por L. infantum são capazes de infectar o vetor biológico Lutzomyia longipalpis e transmitem a infecção a outro indivíduo suscetível, tornando a doença um problema de saúde pública, visto que a LV é uma zoonose, e a leishmania encontrada nos gatos tem características genéticas semelhantes às da doença isolada de cães e de seres humanos”.

A dra. Mendonça publicou em 2017 um artigo no qual destacou a presença de gatos infectados em Teresina, PI: “Leishmania infantum in domestic cats from the municipality of Teresina, state of Piauí, Brazil” (https://doi.org/10.1017/pao.2017.1/).

Veja também o artigo “Leishmaniose felina – revisão de literatura”, publicado na revista Clínica Veterinária n. 122 (https://www.revistaclinicaveterinaria.com.br/blog/produto/revista-clinica-veterinaria-n-122/).

O controle populacional foi outro tema em evidência no evento. André Luis Soares da Fonseca, membro fundador do Brasileish, destacou que as ninhadas de cadelas com leishmaniose felina já nascem infectadas: “Uma cadela com leishmaniose pode gerar 24 filhotes infectados por ano! A castração precisa ser vista como medida de saúde pública”. Outra palestrante, a dra. Camila Vannucchi, apresentou dados comprovando que a castração precoce não era saudável para os animais. Como o controle populacional é extremamente importante, é difícil excluir a castração precoce de algumas regiões. Porém, em animais que vivem em ambiente restrito, a programação de cirurgia contraceptiva pode ser feita a critério do médico-veterinário. É sensato ter em mente que a castração precoce é encontrada em regiões carentes, visando o controle da população animal, mas também em função de algumas leis regionais que obrigam os criadores a comercializarem animais já castrados.

É muito importante que os clínicos veterinários estejam atentos aos avanços da leishmaniose, que acomete tanto cães quanto gatos. Em face de evidências científicas nacionais e internacionais e com base na experiência clínica dos médicos-veterinários membros do Brasileish, foram elaboradas diretrizes para o diagnóstico, estadiamento, tratamento e prevenção da leishmaniose canina, disponíveis no endereço http://brasileish.com.br/assets/files/DIRETRIZES_Brasileish_2.pdf.

Em 2021 o WorldLeish será realizado na Colômbia (http://www.worldleish.org/).


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