O surgimento e a ressignificação do Itec, que agora será IMVC

O ano é 2020. Estamos enfrentando uma pandemia, e com isso muitas coisas estão se ressignificando. Conosco também não está sendo diferente; seja pessoal ou profissionalmente, o momento nos transforma, e também a nossos sonhos e realizações; estamos sempre buscando um mundo mais justo e inclusivo a todas as formas de vida, dentro de nossos valores e objetivos enquanto time. Por isso o Instituto Técnico de Educação e Controle Animal (Itec) está se transformando.

Antes de chegarmos aos dias de hoje e falarmos do futuro, é necessário que se conheça a história de tudo o que nos motivou a nos reunir e a construir uma nova forma de lidar com o manejo populacional de animais, em especial de cães e gatos.

No século XIX, com a descoberta da presença do vírus da raiva na saliva dos cães por Louis Pasteur, eles começaram a ser capturados e eliminados ao redor do mundo. Afogamento, choque elétrico, câmaras de descompressão, morte por asfixia, pauladas, envenenamento e armas de fogo eram métodos usados para eliminar esses animais. Milhares deles eram mortos de forma cruenta, pois pouco se sabia para atuar de forma ética. Essas e outras práticas cruéis motivaram o surgimento de ONGs (organizações não governamentais) em prol da proteção animal em várias partes do mundo. Mesmo com o passar das décadas e estando nós já há 20 anos no século XXI, ainda existe falta de conhecimento, de vontade técnica e de políticas públicas eficientes para um manejo adequado, eficiente e ético desses animais.

Nos Estados Unidos, nos anos 1980, surgiu o movimento No kill (Não matar), que tinha como missão garantir um lar para cães e gatos adotáveis. No Brasil, e em especial no estado de São Paulo, já em meados da década de 1990, as autoridades de saúde pública foram pressionadas pela sociedade a encontrar uma solução mais ética para a destinação de animais que viviam nas ruas, porque o controle da raiva e o não aparecimento de casos em cães e gatos, assim como em seres humanos, já era uma realidade, graças a programas de controle que intensificaram estratégias como a vacinação de animais, o acompanhamento de casos de agravos com seres humanos e o envio de amostras de animais com protocolo sugestivo – ou seja, um implemento da vigilância em si. As ONGs promoviam à época discussões a respeito das alternativas para o controle ético de animais sadios e inseriam essas propostas em um conceito de valores sociais como a coletividade, a inclusão, a compaixão, visando o desenvolvimento de ações de promoção à saúde.

Em 1995, a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA) – atualmente World Animal Protection (WAP) –, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), realizou no Brasil a primeira Conferência Internacional Pet Respect, trazendo a metodologia de manejo humanitário e guarda responsável de cães e gatos. Nesse mesmo ano, a Prefeitura de Taboão da Serra, SP, em parceria com a ONG Arca Brasil, iniciou a implantação do programa de Manejo Populacional de Cães e Gatos (MPCG), e em 1996 a dra. Rita de Cássia Maria Garcia e o sr. Marco Ciampi iniciaram ações de controle reprodutivo canino e felino, com mutirões de castração. Em 1997, pela Prefeitura de Guarulhos, SP, por meio da MV Adriana Maria Lopes Vieira, e, pela Prefeitura de Jundiaí, SP, da MV Vania de Fátima Plaza Nunes, iniciaram-se ações de controle e manejo populacional de cães e gatos nessas cidades de forma coletiva.

O ano de 2003 ficou marcado pela Reunión Latinoamericana de Expertos en Tenencia Responsable de Mascotas y Control de Poblaciones, organizada pela WSPA e pela Organização Panamericana de Saúde (Opas) no Rio de Janeiro, RJ. Esse evento contou com a participação de alguns profissionais que no futuro se uniriam para a criar a ONG inicialmente denominada Itec, em maio de 2004.

Reunião Latino-americana de Especialistas em Guarda Responsável e Controle Populacional de Cães e Gatos, organizada pela WSPA e Opas no Rio de Janeiro, RJ, em 2003

Nesse contexto surgiu o Itec, objetivando trazer conhecimento, aprimorá-lo de acordo com a realidade e as necessidades nacionais e capacitar gestores, agentes, médicos-veterinários e demais profissionais envolvidos nas políticas de manejo populacional de cães e gatos nos municípios brasileiros, sempre com os mais novos conhecimentos da ciência, com atitudes e técnicas mais éticas, contrapondo- -se de forma efetiva ao que era proposto até então. A castração, o registro e a identificação, o manejo humanitário, a educação para a guarda responsável, a legislação, o controle de recursos e a criação de políticas públicas eficientes ao controle das populações de cães e gatos eram algumas das propostas do Itec.

Nessa época ainda era regra muito comum encontrar pelo país as carrocinhas e os laçadores municipais para retirar animais – em especial cães – das ruas, tivessem ou não tutores. Com pouco ou nenhum treinamento, esses servidores, sem qualquer preocupação com o bem-estar desses animais, os capturavam utilizando laços e os jogavam em um caminhão com brutalidade, levando-os para canis onde na maioria das vezes eram eliminados.

A partir dessa realidade surgiu o curso de Formação de Oficiais de Controle Animal (Foca), que capacita profissionais não só para o resgate seletivo dos animais de forma correta, mas também buscando sensibilizar os participantes a serem agentes de uma transformação necessária e eficaz, e disseminadores da informação e da mudança. O Foca é o único curso no país que faz esse tipo de capacitação e treinamento com profissionais qualificados, sendo, portanto, pioneiro no Brasil. De uma ação inicialmente nacional, já foram capacitados cerca de 4 mil profissionais em toda a América Latina e em Portugal.

Demonstrações em sala de aula de procedimentos para o manejo humanitário do curso de Formação de Oficiais de Controle Animal (Foca)

As Conferências de Medicina Veterinária do Coletivo, organizadas pelo Itec, também foram eventos pioneiros no Brasil, trazendo discussões técnicas sobre uma área nova da medicina veterinária que surgia naquele momento e que abrange conhecimentos de bem- -estar animal, medicina de abrigos (shelter medicine), medicina veterinária legal, a saúde coletiva e, mais recentemente, a medicina veterinária de desastres. O evento já passou por São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre e João Pessoa, e tem como objetivo principal promover a disseminação e o aprimoramento dos conhecimentos da medicina veterinária do coletivo, sempre com o que há de mais recente e moderno na área.

Demonstração prática de técnicas de manejo humanitário de animais do curso de Formação de Oficiais de Controle Animal (Foca)

Recentemente foi criada, também pelo Itec, em parceria com a Coordenadoria Estadual de Defesa da Fauna do Ministério Público de Minas Gerais (Cedef-MPMG), a Capacitação para a Gestão do Manejo Populacional de Cães e Gatos, que treinará gestores e profissionais envolvidos em programas e políticas públicas de 200 municípios do estado de Minas Gerais para gerirem de forma racional os recursos aplicados nos programas, buscando os melhores resultados.

A evolução do pensamento com relação à medicina veterinária do coletivo, todo esse histórico de atuação do Itec e nosso constante desejo de mudanças e avanços têm nos levado a cada vez mais incluir novos e fundamentais conceitos, como o da Saúde Única. Nela, os animais e os seres humanos interagem de forma constante com o ambiente, e é necessário que se criem ações comuns de promoção, preservação e cuidado, lembrando que precisamos evoluir e renovar, tornando- -nos mais abrangentes, sem perder a essência e a base da nossa atuação

Demonstrações práticas de técnicas de manejo humanitário de animais do curso de Formação de Oficiais de Controle Animal (Foca)

Dessa forma, agora o Itec se ressignifica, tornando-se o Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC). Continuaremos capacitando profissionais, produzindo conhecimento e práticas técnicas racionais e humanitárias para a melhora do ambiente e da qualidade de vida de seres humanos e animais.

O IMVC contribui com a bagagem intelectual e prática de todos os que foram e estão envolvidos com os projetos desempenhados pela ONG, trazendo práticas intersetoriais e multiprofissionais para a construção de melhor qualidade de vida para os seres humanos, os animais e o ambiente em que todos habitam – ao passo que a evolução ética social das comunidades as desperta cada vez mais para os direitos dos animais, fortalecendo a presença da medicina veterinária na saúde pública e trazendo à luz o conceito de Saúde Única.

Reunião da equipe ITEC/IMVC e alunos do curso Foca, realizado em São Paulo em 2005

 

Veja pelo QR code abaixo uma animação que está no Instagram a respeito da mudança do Itec para o IMVC.

 

Referências

1-GARCIA, R. C. M. ; NUNES, V. F. P. ; VIEIRA, A. M. L. Introdução à medicina veterinária do coletivo. In: GARCIA, R. C. M. ; CALDERÓN, N. ; BRANDESPIM, D. F. Medicina veterinária do coletivo: fundamentos e práticas. 1. ed. São Paulo: Integrativa, 2019. p. 10-23. ISBN: 978-65- 80244-00-3.

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