Os desafios do atendimento médico-veterinário em catástrofes naturais

Figura 1 – Município de Rio Casca no dia da enchente. Fonte: Grad

 
Na madrugada de 4 de dezembro de 2017, a região da Zona da Mata no Estado de Minas Gerais foi afetada por chuvas intensas. O alto índice pluviométrico ocasionou a cheia do rio Casca e de córregos vizinhos, provocando enchentes em vários municípios da região, dentre eles, Rio Casca, Santa Cruz do Escalvado, Lajinha, São Pedro dos Ferros, Santo Antônio do Grama e distritos desses municípios como Águas Férreas e Vista Alegre, locais bastante atingidos que tiveram grande parte do seu território devastado, nos quais muitas pessoas e animais ficaram desabrigados (Figuras 1, 2 e 3).
 

Figura 2 – Cães procurando abrigo após a enchente no distrito de Vista Alegre em Rio Casca. Fonte: Grad

 
Logo após o acontecimento da enchente, um grupo de resgate de animais em desastres, do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, composto por médicos-veterinários, biólogos, bombeiros civis e protetores que atuam de forma voluntária e humanitária, foram para a região e iniciaram os resgates e os atendimentos dos animais. O objetivo do grupo foi contribuir para diminuir o sofrimento dos animais, uma vez que a vida humana é sempre a prioridade em catástrofes.
 
Figura 3 – Vista da destruição ocasionada pela enchente no município de Rio Casca dois dias após o desastre. Fonte: Grad

 
Neste caso específico, por se tratar de um desastre natural, nenhuma empresa foi responsabilizada pelos seus efeitos, e a solução ficou por conta da prefeitura e da consciência de cidadania e da generosidade de pessoas que, mesmo perdendo tudo o que tinham, uniram forças para ajudar seus semelhantes e os animais (Figuras 4).
 
Figura 4 – Escola em Rio Casca usada como abrigo e local de doação de roupas e comida. Fonte: Grad

A grande dificuldade enfrentada pelo grupo foi a falta de recursos. Um ponto crucial nesse episódio é que não havia uma estrutura para receber os animais, então eles tiveram que ser atendidos nos locais onde estavam (Figura 5). A equipe também se viu obrigada a contê-los nos lugares onde foram encontrados, presos em correntes ou cordas, de forma provisória, quando eram agressivos ou estavam bastantes debilitados ou mantidos soltos nas ruas, monitorados por membros do grupo e por protetores de animais da cidade de Rio Casca. Os veterinários e seus auxiliares retornavam diariamente aos locais onde havia animais em tratamento para manter a oferta de água, de comida e dos cuidados clínicos necessários.
 
Figura 5 – Bombeira civil, Bell Silva ajudando no atendimento a campo junto a MV Luciana Guimarães. Fonte: Grad

O ponto de apoio da equipe foi a Câmara Municipal de Rio Casca, usada como ponto de atendimento aos animais e como local de doação e estocagem de medicamentos, materiais, cobertores, casinhas, coleiras, comedouros e ração, dentre outros. Sem prejuízo dos atendimentos feitos na Câmara Municipal, a equipe se revezava entre a assistência e as buscas em campo, bem como nos atendimentos às cidades vizinhas, quando solicitados. Não poderia passar em branco a valorosa participação dos cidadãos da região que se dispuseram ao trabalho voluntário, cuja contribuição foi de grande valia.
Os voluntários ficaram em casas de cidadãos de Rio Casca, em escola e hotel, pago pela prefeitura do município. As ações tiveram apoio do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais, da Comissão de Proteção à Fauna da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, do Movimento Mineiro pelos Direitos dos Animais e da Coordenadoria Estadual de Defesa da Fauna do Ministério Público de Minas Gerais.
A Equipe chegou na região no dia 06/12/17 e deu apoio no local até o dia 30/12/17, realizando trabalho de resgate, atendimentos clínico e cirúrgico, fornecimento de ração e apoio aos tutores dos animais desabrigados. Na cidade de Rio Casca, a equipe ajudou no resgate dos animais da D. Maria, uma acumuladora de animais que tinha em torno de 80 animais entre cães e gatos e 200 galináceos, sendo que desses, restaram somente 21 cães e 5 gatos. Os animais sobreviventes foram examinados, desverminados, vacinados e foram castrados quinze dias após a tragédia.
Durante o período que a equipe ficou na região foram atendidos 159 cães, 6 gatos, 56 equídeos, 22 suínos e 53 galináceos.
 
Também foram atendidos um coelho e uma maritaca. Quando ocorrem inundações são frequentes casos de afogamentos dos animais, exaustão por fazer longas caminhadas para encontrar alimento gerando fome, caquexia, feridas e injúrias na pele e nas patas, doenças respiratórias, aumento de ecto e endoparasitas, aumento de doenças infecciosas, zoonoses e outras transmitidas por vetores. Os casos mais frenquentes encontrados na inundação da Zona da Mata mineira foram: escoriações, avulsões, fraturas e distúrbios gastrintestinais, entre outros. Foi realizado também o recolhimento de animais mortos, inclusive daqueles que já se encontravam em estágio avançado de decomposição (Figuras 6, 7 e 8).
 
Figura 6 – A enxurrada carregou animais cujas carcaças ficaram presas em objetos ou destroços. A) Carçaça de galinha. B) Carcaça de suíno

Todos os animais atendidos foram desverminados e tratados para ectoparasitas, os cães foram vacinados em sua maioria com vacina polivalente espécie-específica e os cavalos vacinados contra tétano.
Com o passar dos dias, a população tomou conhecimento do atendimento feito pela equipe na Câmara e começou a trazer animais que haviam sido indiretamente atingidos pela tragédia, uma vez que a única clínica veterinária e as duas lojas agropecuárias da cidade tinham sido atingidas pela chuva. Os casos atendidos variaram desde cinomose, dermatopatias, hemoparasitoses, tumor venéreo transmissível (TVT), piometra, entre outros.
 
Figura 7 – Cerca de dois mil porcos de uma única granja morreram no desastre. Fonrte: Grad

Cada atendimento realizado gerava exames laboratoriais (hemograma, raspado de pele, citologia e coproparasitológico) e de diagnóstico de imagem por ultrassonografia. Os hemogramas, foram realizados manualmente com o auxílio de reagentes e microscópio, no qual foram feitas as leituras das lâminas para os exames de raspado de pele e parasitológicos diretos a fresco, estes últimos, corados com lugol.
 

Figura 8 – Retirada de carcaças de equinos no distrito de Vista Alegre. Fonte: Grad.

 
Os esfregaços sanguíneos foram corados com panótico rápido, que também serviu para a coloração das citologias, cujas amostras foram coletadas pelos veterinários que estavam em campo. Para a realização das ultrassonografias foi utilizado um aparelho móvel de ultrassom com bateria, possibilitando a realização dos exames em locais remotos ou em locais que estavam sem energia elétrica (Figura 9). Dada a gravidade de alguns casos atendidos, os exames de imagem e laboratoriais foram de grande importância para um diagnostico rápido e preciso, auxiliando os médicos-veterinários a optarem pelo método mais eficaz de tratamento em um curto espaço de tempo.
 
Figura 9 – MV Mayra Anelore Pereira realizando ultrassonografia em um cão, acompanhada pelo tutor do animal. Fonte: Grad

Com o resultado dos exames e diante do levantamento do quadro clínico dos animais resgatados, procederam-se as vacinações, visando a imunização dos animais e o controle de leptospirose, castrações e cirurgias de piometra, sendo o pós-operatório acompanhado pelos veterinários do grupo. Foram realizadas cinco ovariohisterectomias de forma emergencial, sendo que três casos eram de cadelas com piometra.
O primeiro caso de piometra encontrado foi de uma pinscher, que vivia no vilarejo de Vista Alegre, um dos locais mais atingidos da região. O tutor ficou sabendo que existiam veterinários fazendo atendimentos aos animais atingidos e então foi atrás de ajuda para sua cadelinha que tinha idade aproximada de dois anos e que havia parido um dia antes da enchente, sendo que somente um de seus filhotes sobreviveu. O tutor chegou com a queixa de que o animal estava apático, apresentava anorexia e polidpsia.
 

Ao exame clínico, o animal apresentava hipertermia, hifema, descarga vaginal purulenta, aumento de volume abdominal e com sensibilidade à palpação e mucosas congestas. Foi realizado o atendimento a campo, foi feita a fluidoterapia com Ringer Lactato por via endovenosa juntamente com hepatoprotetores, vitamina B12, antipiréticos, antiespasmódico, antibióticoterapia com metronidazol e enrofloxacina e também anti-inflamatório para que pudesse diminuir a formação de imunocomplexos.
Esse tratamento instituído foi mantido por três dias. O animal foi estabilizado e não apresentou mais hipertermia, congestão, nem hifema, além de voltar a se alimentar. A cadela foi submetida a exames complementares e diagnóstico foi fechado. O animal foi operado dentro da Câmara Municipal com anestesia inalatória, com o seguinte protocolo: MPA com meperidina; indução com cetamina e diazepan; manutenção com anestesia inalatória com isofluorano sem reinalação.
O transoperatório seguiu sem nenhuma intercorrência e o pós-operatório imediato foi feito na própria Câmara Municipal, onde a cadela ficou em observação durante 24 horas. Foi improvisada uma roupa pós-cirúrgica com camisetas e uma caminha com travesseiros e cobertores que haviam sido encaminhados por doação (Figura 10). A cadela se recuperou bem e após 24 horas o animal teve alta médica para seguir o tratamento junto aos seus tutores.
 

Figura 10 – Cadela pinscher se recuperando da anestesia, utilizando roupinha improvisada. Fonte: Grad

 
O segundo caso de piometra foi uma cadela também em Vista Alegre que estava perambulando nas ruas atingidas pela enchente. Foi informado que ela não possuía tutor e que havia aparecido lá após a enchente, pois muitos animais foram arrastados pela água de um bairro para outro. O animal estava sujo de lama, apresentava caquexia e prostração. A cadela passou por todo o procedimento acima citado, contudo por não ter tutor, permaneceu na Câmara Municipal por mais uns dias. Sua história foi divulgada nas redes sociais e hoje ela vive feliz com seu novo tutor em São Paulo (Figura 11).
 
Figura 11 – Cadelinha encontrada nas ruas de Vista Alegre (Rio Casca) em seu novo lar em São Paulo. Fonte: Grad

Foi feito um atendimento em uma égua que havia ficado presa na sua baia durante a enchente (Figura 12). Após longo tempo tentando sair da baia, para se salvar, ela enganchou um dos membros pélvicos em restos de cercas de arame farpado e madeiras que estavam na água. Na tentativa de soltar a pata, ocorreu uma avulsão severa de pele e músculo. No atendimento clínico a esse animal constatou-se exposição de tendões, osso, edema, hipertermia, hiperemia da região, claudicação, porém os tendões e ossos estavam íntegros. Foi realizado como tratamento básico limpeza da ferida com água e sabão e em seguida foi aplicado um spray de cipermetrina, diclorvós, alumínio e sulfadiazina de prata.
 
Figura 12 – Égua que se feriu com arame farpado quando nadava tentado se salvar. Fonte: Grad

Foi feita uma aplicação intramuscular de dexametasona, dipirona sódica e penicilina G procaína (50.000 UI/kg). Foi feita a limpeza 3 vezes ao dia com água e sabão e aplicação local de chá de barbatimão e pomada de permetrina, butóxido de piperonila e óxido de zinco. Após dois dias da instituição do tratamento, a égua apresentou melhora geral e a ferida mostrou sinais de cicatrização.
São muitos os desafios do atendimento médico-veterinário em catástrofes naturais, porém mesmo com todas as dificuldades encontradas na região da enchente foi possível proporcionar um atendimento de qualidade aos animais, com êxito nos procedimentos realizados.
É importante salientar que o resgate e salvamento dos animais é um dever ético, moral e técnico pois assegura o bem-estar animal dos indivíduos afetados e em risco, e zela pelo bem-estar emocional de seus tutores, que com frequência se encontram fragilizados pela perda de bens materiais e, por vezes, de entes queridos. O profissional precisa estar preparado para trabalhar em situações adversas, precisa ser racional ao lidar com panoramas extremamente difíceis e, acima de tudo, precisa usar seus conhecimentos para oferecer cuidados aos animais, proporcionando a cura de suas enfermidades e a diminuição de seus sofrimentos, garantindo um nível adequado de bem-estar animal também nesses momentos.

Referência sugerida

1-World animal protection. Animais em situações de desastre. Disponível em: https://www.worldanimalprotection.org.br/nosso-trabalho/animais-em-situacoes-de-desastre. Acesso em 20 de julho de 2019.
 

Autores


Luciana Guimarães Santana
MV, CRMV-SP: 15.903
Grupo de Resgate de Animais em Desastres – Grad
luciana_vet@outlook.com
 
 
Daniela de Oliveira Souza Souto
MV, CRMV-SP: 16.688
Grupo de Resgate de Animais em Desastres – Grad
danidiol@yahoo.com
 
 
Mayra Anelore Pereira
MV, CRMV-SP: 20.495
Grupo de Resgate de Animais em Desastres – Grad
permayra@gmail.com
 
 
Ana Liz Bastos
MV, CRMV-MG: 5.200, conselheira e presidente da Comissão de Bem-estar Animal do CRMV-MG; perita da Coordenadoria Estadual de Defesa da Fauna do MPMG; coordenadora geral do Grupo de Resgate de Animais em Desastres – Grad
analiz.bastos@gmail.com

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