Covid-19 e os animais de companhia – atualização de 9 de junho de 2020

COVID-19 and companion animals – June 9, 2020 update

Helio Autran de Morais

MV, MS, PhD, DACVIM (Medicina interna e cardiologia)

Professor titular e diretor do Hospital Veterinário

Universidade do Estado de Oregon, EUA

 

Resumo: Muitas coisas aconteceram durante a semana entre 2 e 9 de junho de 2020 relacionadas com Covid-19 e animais. Dois cães e dois gatos com Covid-19 foram diagnosticados nos EUA e duas publicações apresentaram mais detalhes sobre os dois gatos com SARS-CoV-2 em Nova York e do gato da região de Paris. Detalhes adicionais sobre a fase inicial do surto de Covid-19 em visons na Holanda também foram divulgados em preprint. As investigações sobre o surto de Covid-19 em visons continuam e há receio quanto ao risco de transmissão para pessoas e que os visons possam se transformar em reservatórios para o vírus. Para controlar a disseminação da doença, foi decidido o abate dos animais nas 13 fazendas com casos positivos. Foi também determinado que ferrets reinoculados não desenvolvem lesão pulmonar aguda. A proteção nos ferrets não é completa e eles têm sinais clínicos leves e voltam a excretar o vírus.

 

Abstract: A lot happened during the week between June 2 and 9, 2020 related to COVID-19 and animals Two dogs and two cats with COVID-19 were diagnosed in the USA and two publications provided more details about the two cats with SARS-CoV-2 in New York and the cat from the Paris region. Additional details on the initial phase of the COVID-19 mink outbreak in the Netherlands were also released in a preprint. Investigations into the outbreak of COVID-19 in minks are ongoing and there are concerns about the risk of transmission to people, and that minks could become reservoirs for the virus. To control the spread of the disease, it was decided to cull the animals on the 13 farms with positive cases. It has also been determined that reinoculated ferrets do not develop acute lung injury. The protection in ferrets is not complete and they have mild clinical signs and shed the virus again.

 

Toda semana, mais informações estão disponíveis sobre o SARS-CoV-2 e animais. Consequentemente, é necessária uma atualização constante do trabalho: “O novo coronavírus e animais de companhia 1 publicado em 5 de maio de 2020, e de suas atualizações em 11 de maio de 2020 2, 17 de maio de 2020 3, 25 de maio de 2020 4 e 1 de junho de 2020 5. O objetivo desta atualização é incluir as informações sobre SARS-CoV-2 e animais disponibilizadas entre 2 e 9 de junho de 2020.

 

Gatos

O que já sabíamos 1-5

Gatos jovens e adultos podem ser infectados experimentalmente por via intranasal 6,7 ou em uma combinação de via intranasal, intratraqueal e ocular 6:

Gatos inoculados experimentalmente não desenvolvem sinais clínicos 6-8;

A eliminação de vírus é relativamente baixa 6, mas gatos, em condições experimentais, podem transmitir o vírus para outros gatos mesmo sem contato direto 6-8;

A excreção do vírus por via nasal pode durar até 10 dias 8;

Gatos experimentalmente infectados não podem ser reinfectados 28 dias da primeira infecção 8;

Gatos adultos experimentalmente infectados não desenvolvem alterações na radiografia torácica. Histopatologicamente, pode-se observar rinite linfoplasmacítica supurativa e ulcerativa moderada e traqueíte linfoplasmacítica leve, indicando que apesar de subclínica, a infecção não é completamente benigna 8;

– Ocasionalmente, gatos podem adquirir a infecção de pessoas;

– O vírus já foi identificado em 5:

Vinte gatos:

. 11 gatos foram positivos na RT-PCR; anticorpos neutralizantes foram identificados em 4 desses gatos;

. 9 gatos foram negativos na RT-PCR e desenvolveram anticorpos neutralizantes;

. 7 gatos apresentaram sinais clínicos e 12 foram assintomáticos. Em um gato não foram descritos sinais clínicos, mas o gato foi levado ao veterinário;

Cinco tigres, 1 dos quais era assintomático:

. Foi divulgado o genoma do vírus SARS-CoV-2 que infectou o tigre no Zoológico do Bronx nos EUA 9. A sequência viral está depositada no GenBank do National Center for Biotechnology Information sob o número de acesso MT365033. A amostra é 100% similar a várias outras atualmente circulando em pessoas. É mais um caso de um animal infectado por uma pessoa com Covid-19;

Três leões, todos com sinais respiratórios;

– Gatos naturalmente infectados podem ou não desenvolver sinais clínicos:

Sinais gastrintestinais e respiratórios já foram associados ao SARS-CoV-2 em gatos;

– Gatos eliminam o vírus por via nasofaríngea e retal;

– Gatos desenvolvem anticorpos neutralizantes:

. Em um estudo ainda não publicado em Wuhan, China, 11 de 102 gatos desenvolveram anticorpos neutralizantes contra SARS-CoV-2. Em apenas 3 o título de anticorpos foi ≥ 40 10. Consequentemente, apenas 3 desses gatos foram considerados expostos ao SARS-CoV-2;

. Anticorpos contra o SARS-CoV-2 foram detectados em 7 de 24 gatos que viviam em duas das fazendas holandesas em que está ocorrendo um surto de Covid-19 em visons 11;

. É possível que esses gatos tenham adquirido o vírus dos visons 11.

 

O que aconteceu na última semana

Informações adicionais foram publicadas para o gato da região de Paris que ficou doente em abril 12. O gato foi parte de um estudo com 22 gatos e 11 cães de proprietários com Covid-19. Diferentemente dos estudos anteriores, todos esses animais tinham sinais clínicos que incluíram: anorexia, hipertermia, letargia, diarreia, tosse, broncopneumonia e dispneia 12. A RT-PCR foi negativa em todos os cães e em 21 dos 22 gatos. Já sabíamos da existência dessa gata 13 e o estudo fornece informações adicionais sobre o caso. Dezessete dias antes da gata adoecer, os proprietários apresentaram sinais compatíveis com Covid-19. A gata europeia de 9 anos foi examinada inicialmente com vômito e tosse e foi hospitalizada 4 dias depois. Swabs retais foram positivos para RT-PCR 8 dias após o início dos sinais, enquanto amostras nasofaríngeas foram negativas. A sequência do vírus está depositada no GISAID sob o número de acesso EPI_ISL_437349. Amostras nasofaríngeas e retais coletadas 10 dias depois foram negativas 12. Anticorpos neutralizantes foram encontrados nas duas ocasiões em que foram coletadas as amostras 12.

A descrição dos dois gatos de Nova York também foi publicada essa semana 14. O gato de Nassau County era um gato doméstico de pelo curto de 4 anos de idade, que apresentou espirros, corrimento ocular seroso, letargia leve. Ele foi levado ao veterinário uma semana depois e testou negativo para todos os organismos do painel de PCR respiratória. O gato foi tratado com cefovecina e retornou para casa. Os sinais desapareceram 2 dias depois da visita. As amostras também foram positivas para SARS-CoV-2 14. Esse gato vivia com outro gato saudável que não foi testado e os dois saíam à rua ocasionalmente. Das 5 pessoas que viviam na casa, 3 tiveram sinais respiratórios que incluíram febre, tosse e calafrios. Nenhum dos ocupantes da casa foi testado para Covid-19, mas houve vários casos positivos no prédio onde moram.

O gato de Orange County em Nova York, que testou positivo na RT-PCR, era um devon rex de 5 anos de idade que apresentou espirros, tosse, corrimento nasal e ocular seroso, perda de apetite e letargia 14. Amostras nasais, da conjuntiva, orais e de fezes foram submetidas para o painel de PCR para doenças infecciosas. O resultado foi positivo para Mycoplasma felis no painel de PCR respiratória. O gato melhorou dois dias depois sem tratamento 14. Esse gato vivia com outro devon rex de 7 anos de idade que permaneceu saudável e não foi testado para SARS-CoV-2. Os dois gatos não saem à rua. Um dos moradores da casa foi diagnosticado com Covid-19 14. Dois outros gatos pertencentes a famílias com Covid-19 foram diagnosticados com SARS-CoV-2 nos Estados Unidos na última semana. O primeiro foi um gato no estado de Minnesota que apresentou febre e sinais de trato respiratório superior que duraram 5 dias. Um cão na mesma casa é saudável 15. O outro gato que ficou doente em meados de maio vive no estado de Illinois 16. Esses animais já estão no site do USDA 17, mas as informações ainda são escassas.

Os casos de infecção natural em gatos onde foi detectada a presença de antígenos ou anticorpos estão descritos na figura 1.

Figura 1 – Relatos de casos naturais de SARS-CoV-2 diagnosticado por identificação de anticorpos neutralizantes ou RNA viral por RT-PCR em gatos. Atualizado em 9/6/2020 (Adaptado 18)

 

Cães

O que já sabíamos 1-5

– Cães jovens podem ser infectados experimentalmente por via intranasal 7:

Cães jovens ou adultos são mais refratários à infecção que gatos 6,7:

. Não eliminaram o vírus por via orofaríngea; RNA viral foi encontrado em swabs retais de cães jovens:

. Vírus infectante não pode ser obtido dessas amostras;

. RNA viral não foi encontrado em nenhum órgão na necropsia;

. Cães desenvolveram anticorpos neutralizantes;

. Não transmitiram a doença para outros cães;

– Cães podem ser mais resistentes à infecção por SARS-CoV-2 do que gatos porque eles têm pouca expressão do receptor ACE2 no trato respiratório. Mesmo que esse receptor possa interagir com o SARS-CoV-2, a pouca expressão em órgãos que têm contato com o ambiente externo limita a possibilidade de iniciar o processo infecioso 34;

– Infecção natural por SARS-CoV-2 foi identificada em apenas 3 cães 1-5,35,36:

Anticorpos neutralizantes estavam presentes nos 3, e em apenas 2 o RNA viral foi encontrado;

Os dois cães RT-PCR positivo não apresentaram sinais clínicos 36. Eles desenvolveram anticorpos neutralizantes e em um desses cães foi possível isolar o vírus. Nos dois casos o genoma do vírus está disponível 36. O vírus desses cães teve homologia perfeita, ou quase perfeita (divergência em 3 nucleotídeos) com a dos proprietários ou pessoas que viviam na mesma residência. As sequências virais das duas famílias foram diferentes, o que sustenta a suposição de que os cães foram infectados pelos proprietários nos dois casos;

O terceiro cão apresentou problemas respiratórios, mas não se sabe se foram causados pelo SARS-CoV-2 35;

Foi descartado o diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2 como divulgado pela imprensa em 28 de abril de 2020 em um pug da Carolina do Norte 37,38. O diagnóstico final de infecção por SARS-CoV-2 em animais dos EUA só pode ser fornecido após confirmação pelo Laboratório Nacional de Serviços Veterinários do Departamento de Agricultura dos EUA. Os exames realizados nesse laboratório não encontraram o SARS-CoV-2 nas várias amostras testadas. Também não houve evidência de resposta imune no teste de neutralização do vírus 39. Consequentemente, esse cão nunca teve Covid-19. A fraca detecção de RNA viral por PCR pode ter sido resultado de contaminação ambiental ou contaminação do cão por uma das 3 pessoas com Covid-19 na casa.

 

O que aconteceu na última semana

Em 2 de junho, foi anunciado que dois cães da mesma família apresentaram anticorpos contra o SARS-CoV-2 40. Um dos tutores teve sintomas compatíveis, enquanto o outro apresentou resultado positivo para Covid-19. Um cão pastor alemão apresentou sinais respiratórios depois do tutor, enquanto que o segundo cão permaneceu aparentemente saudável 40. Apenas o pastor alemão afetado testou positivo para SARS-CoV-2 na RT-PCR. Presume-se que o cão tenha sido infectado por seus tutores e espera-se uma recuperação completa 40. Os resultados dos testes sorológicos conduzidos no segundo cão revelaram anticorpos específicos para o vírus, indicando que, embora nunca tenha desenvolvido sinais clínicos da doença, ele foi exposto ao vírus Covid-19 40.

Um estudo usando cães farejadores para diagnosticar Covid em pessoas foi disponibilizado como preprint 41. Dezoito cães foram treinados, e no final 8 deles foram utilizados no estudo. Eles eram cães que detectavam explosivos ou câncer de cólon. Dos cães restantes, alguns não tiveram performance aceitável, e outros continuarão o treinamento para serem utilizados em trabalhos futuros 41. O sucesso dos 8 cães em encontrar as amostras positivas em uma série contendo amostras positivas e negativas foi de 100% para 4 cães e entre 83 e 94% para os outros 4. Esse estudo demonstra que cães são capazes de diferenciar amostras de suor de pessoas Covid-19 positivas, das de pessoas negativas com razoável acurácia 41. Os resultados apresentados parecem ser preliminares, e teremos que esperar um pouco mais até que se saiba se os cães poderão ser utilizados na detecção rápida de pacientes com Covid-19.

Os casos de infecção natural em cão nos quais foi detectada a presença de antígeno ou anticorpo estão descritos na figura 2.

Figura 2 – Relatos de casos naturais de SARS-CoV-2 diagnosticado por identificação do RNA viral por RT-PCR em cães. Atualizado em 9/6/20 (Adaptado 18)*

* O cão da Carolina do Norte 37,38 foi retirado da tabela porque o resultado não foi confirmado e a conclusão final é que ele não foi infectado pelo SARS-CoV-2 39.

 

Mustelídeos e grandes felídeos

O que já sabíamos 1-5

– Ferrets podem ser infectados experimentalmente por via intranasal 7,42-44:

Podem desenvolver sinais clínicos ou permanecer assintomáticos 7,42-44;

Eliminam o vírus por via retal e orofaríngea;

Desenvolvem anticorpos neutralizantes;

Infectam outros ferrets por contato direto e indireto;

– Infecção natural por SARS-CoV-2 foi identificada em visons 32,35,45,46:

Visons podem desenvolver sinais clínicos ou ter infecção assintomática:

. Apresentam sinais respiratórios, gastrintestinais e óbito;

. Fêmeas prenhas têm risco aumentado;

Surto em quatro fazendas de produção de visons:

. Morbidade e mortalidade baixas;

. Baixa da produção, perda de animais;

. Fêmeas prenhes têm risco maior;

. Houve transmissão entre animais direta e indiretamente;

. Vírus já está circulando nas granjas há várias semanas;

. Sequência genética do vírus nos visons é diferente das que estão circulando em pessoas na Holanda;

Medidas sanitárias estão sendo estendidas a todas as granjas de visons na Holanda:

. Incluem proibição de transporte de visons e de seu estrume, controle de visitação, controle de entrada e saída de outros animais das granjas (cães, gatos e ferrets) e incremento dos protocolos de higiene 32;

. O risco à saúde pública a longo prazo depende de o vison poder se tornar uma fonte permanente de reinfecção de seres humanos e de animais 32. Isso está sendo examinado epidemiologicamente nas três primeiras granjas infectadas;

. As demais fazendas de visons na Holanda estão sendo rastreadas sorologicamente para SARS-CoV-2 porque é possível que possam estar ocorrendo apenas infecções subclínicas em algumas granjas 11.

 

O que ocorreu na última semana

Visons

A maior parte das informações da semana passada sobre visons Covid-19 esteve relacionada à decisão de abater os animais afetados nas 13 fazendas de visons com Covid-19. Os animais de todas as fazendas onde houver infecção serão abatidos. O abate é considerado necessário devido ao risco de transmissão às pessoas e à possibilidade de os visons se tornarem um reservatório para o vírus 30. O abate teve início em 6 de junho e deve continuar até o final da semana 47.

Maiores dados sobre o surto de Covid-19 em visons no mês de abril estão disponíveis em um manuscrito em preprint relatando o que foi encontrado nas primeiras duas fazendas nas quais ocorreu o surto 48. Os primeiros sinais respiratórios foram identificados nos dias 19 e 20 de abril e estavam limitados principalmente à secreção nasal aquosa, com alguns animais apresentando dificuldade respiratória. Nos 10 dias subsequentes as taxas de mortalidade ficaram entre 1,2 e 2,4%. Isso representou um aumento de 2 a 4 vezes na mortalidade 48. Como nessa época do ano a população de visons consiste principalmente de fêmeas prenhas, existia o risco de um aumento no número de casos. Nas poucas ninhadas que já estavam presentes não foi observado aumento na mortalidade de filhotes. Por outro lado, a introdução de filhotes aumenta o número de animais suscetíveis e pode dificultar o processo de erradicação do SARS-CoV-2 das granjas de visons 30.

Os animais que morreram foram necropsiados. As alterações pulmonares incluíram pneumonia intersticial difusa grave com hiperemia e dano alveolar 48. As culturas bacterianas foram negativas. RNA viral foi detectado na cavidade nasal, pulmões e em swabs faríngeos e retais. As maiores cargas virais foram obtidas nos swabs faríngeos 48.

A análise filogenética das sequências dos vírus nos visons demonstrou que as sequências de 2 fazendas divergiram em 22 posições de nucleotídeos. As sequências de cada fazenda foram similares entre si 48. Isso sugere que o vírus foi introduzido nas duas fazendas de forma independente e de fontes diferentes. Isso contradiz algumas especulações anteriores de que os gatos locais poderiam estar envolvidos no transporte do vírus de uma fazenda para outra, pelo menos entre essas duas fazendas. O mais provável é que o vírus tenha sido introduzido por pessoas diferentes em cada fazenda e se disseminou eficientemente entre os visons. Os visons são mantidos em gaiolas individuais com uma partição não permeável entre as gaiolas. Assim, o contato direto não pode ter sido responsável pela transmissão 48. A transmissão indireta entre martas pode ter ocorrido por meio de fômites, por gotículas infecciosas geradas pelos animais infectados, por poeira contaminada da cama ou por uma combinação dessas opções. A detecção de RNA viral na poeira inalável transportada pelo ar nas fazendas de vison sugere que poeira ou gotículas tenham sido um dos meios de transmissão entre os visons. Esse também pode ter sido um risco ocupacional de exposição para os trabalhadores nas fazendas 48 e ter sido a origem do vírus que infectou pelo menos dois trabalhadores nas fazendas de visons 11.

Os casos de infecção natural em outras espécies nas quais foi detectada a presença de antígeno estão descritos na figura 3.

Figura 3 – Relatos de casos naturais de SARS-CoV-2 diagnosticado por identificação do RNA viral por RT-PCR em outras espécies. Atualizado em 9/6/20

 

Outras espécies

O que já sabíamos 1-5

– As seguintes espécies podem ser infectadas experimentalmente:

Hamster 54-56:

. Inoculados por via intranasal, apresentam sinais, desenvolvem anticorpos neutralizantes e transmitem para outros hamsters por contato direto e indireto;

. A transmissão é mais eficaz por aerossóis e gotículas do que por fômites;

 

Coelhos 57,58:

. Detalhes sobre o estudo ainda não estão disponíveis;

 

Macaco-rhesus 59-65:

. Inoculados por via intranasal, intratraqueal, oral e ocular, apresentam sinais e desenvolvem anticorpos neutralizantes;

. Não podem ser reinfectados algumas semanas após a exposição inicial;

. Infecção por SARS-CoV-2 induz imunidade protetora contra a reexposição em macacos-rhesus;

 

Macaco-cynomolgus 60,66:

. Inoculados por via intratraqueal e conjuntival, apresentam sinais e desenvolvem anticorpos neutralizantes;

 

Macaco-verde-africano 67:

. Inoculados por via intranasal e intratraqueal apresentam sinais leves e desenvolvem anticorpos neutralizantes;

. Vírus infectante foi identificado em amostras nasais e no lavado traqueal de todos os 6 animais, nas amostras orais de 3, e fecais de 1 macaco;

 

Sagui 60:

. Inoculados por via intranasal, não apresentam sinais clínicos, não se sabe se desenvolvem anticorpos neutralizantes. Mais resistentes à infecção experimental que macaco rhesus e macaco cynomolgus 60;

 

Morcego-das-frutas-egípcio (Rousettus aegyptiacus) 68:

. Inoculados por via intranasal desenvolvem infecção com rinite. Vírus foi detectado na cavidade nasal, traqueia, pulmão e no tecido linfático associado ao pulmão;

. Transmitem para outros morcegos;

. Apresentaram um quadro compatível com o de uma espécie reservatório;

– As seguintes espécies não puderam ser infectadas experimentalmente por via intranasal:

Camundongos 69;

 

Porcos 7,68:

. Como os cães, os porcos podem ser resistentes a infecção por via intranasal com SARS-CoV-2 por terem mínima expressão do receptor ACE2 no trato respiratório 34;

. Diferente do cão, porcos têm alta expressão da ACE2 no duodeno. Essa expressão no intestino pode representar uma possível via alternativa para a entrada viral. Isso ainda não foi estudado;

 

Galinhas 7,68;

 

Patos 7.

 

O que ocorreu na última semana

Suscetibilidade

Musaranhos-das-árvores (Tupaia belangeris) podem ser infectados experimentalmente com o SARS-CoV-2 por via intranasal 70. Os musaranhos foram pouco suscetíveis à infecção desenvolvendo apenas febre. A excreção viral foi baixa e ocorreu replicação em tecidos. É improvável que o musaranho venha substituir os modelos experimentais disponíveis.

 

Reinfecção e proteção

Já foi demonstrado que gatos 8 e macacos-rhesus 64,65 são resistentes a reinfecção por SARS-CoV-2. Um estudo recente mostrou que ferrets não desenvolvem doença pulmonar aguda quando reinfectados 71. Diferente de gatos e dos macacos-rhesus, ferrets exibiram sinais clínicos leves, como letargia e voltaram a excretar o vírus depois da reinfecção. Os animais selecionados para reinfecção tinham baixos títulos de anticorpos neutralizantes. Isso pode ter sido responsável pela ausência de proteção total à reinfecção. O estudo também analisou a titulação da dose. Quanto maior a dose do inóculo, maior a carga viral excretada e por mais tempo isso ocorreu. Os sinais clínicos também se correlacionaram diretamente com a dose de inóculo utilizada 71.

 

Transmissão

O que já sabíamos 1-5

Transmissão intraespécie:

As seguintes espécies transmitem o vírus experimentalmente para outros membros da mesma espécie:

. Gatos 6-8;

. Ferrets 7,42,43,68;

. Hamsters 54-56;

. Morcegos-das-frutas-egípcios (Rousettus aegyptiacus) 68;

. Os visons transmitem o vírus para outros visons em condições naturais 48;

 

Transmissão intraespécie:

Transmissão interespécies não-humanas está sendo considerada entre visons e gatos 11,32,35;

  • Transmissão de animais para pessoas
    • É possível que dois funcionários de empresas de vison infectadas com SARSCoV-2 tenha sido infectado por um vison 11,32,35

  • Transmissão por animais imunossuprimidos
    • A eliminação de vírus infectante por via nasal durou mais em ferrets tratados com azatioprina do que nos não tratados 44

  • Transmissão por fômites
    • A transmissão por fômites é menos eficiente que por contato direto ou indireto em hamsters 56

  • Prevenção da transmissão com o uso de máscara cirúrgica
    • Um estudo demonstrou que a inclusão de máscaras cirúrgicas entre as gaiolas de hamsters diminui a transmissão de SARS-CoV-2 de hamster de uma gaiola para os hamsters nas outras 54

 

O que ocorreu na última semana

Prevenção da transmissão com o uso de máscaras

Um estudo demonstrou que máscaras de tecido preveniram a contaminação de camundongos livres de patógenos por partículas pequenas 72. Foram utilizados sprays com suspensão bacteriana borrifada nos camundongos protegidos ou não por uma barreira de algodão 100%. Essa barreira simulou o uso apropriado de uma máscara de tecido 73. Os vírus respiratórios precisam de suspensões em gotículas líquidas para permanecerem infectantes por longos períodos de tempo e contaminar indivíduos suscetíveis. O modelo com spray com bactérias simula o que aconteceria quando uma pessoa espirra e pode ser extrapolado para o que acontece com vírus respiratórios 73. Todos os camundongos protegidos com máscaras de algodão permaneceram livres de patógenos, enquanto todos os camundongos sem máscara se contaminaram 72 sugerindo que máscaras de tecidos ajudam na prevenção da transmissão do SARS-CoV-2 através de gotículas.

 

Considerações finais

Está cada dia mais claro que o SARS-CoV-2 pode infectar uma gama grande de hospedeiros. O vírus provavelmente foi transmitido de um morcego para pessoas, talvez com uma passagem por um ou mais hospedeiros intermediários 74. Já temos confirmados casos de transmissão de pessoas para pelo menos 5 espécies e já ocorreu transmissão de visons para pessoas. É preocupante a eficiência com o que o vírus se dissemina em visons, porque os visons poderiam se tornar reservatórios para a doença. Isso levou o governo holandês a tomar a drástica decisão de abater os animais. Essa parece ser a única maneira de eliminar o vírus dos rebanhos. A situação com os visons é peculiar porque eles vivem em uma alta densidade populacional que não pode ser reproduzida em outras espécies suscetíveis. Consequentemente, ainda é válida a conclusão: “Mesmo sabendo que gatos e furões podem infectar animais em condições laboratoriais, não temos nenhuma evidência de que cães, gatos ou furões possam transmitir SARS-CoV2 a outros animais ou seres humanos fora do laboratório, seja como fonte de fômites ou eliminando o vírus.”

 

Referências

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