Covid-19 e os animais de companhia – atualização de 16 de junho de 2020

COVID-19 and companion animals – June 16, 2020 update

 

Helio Autran de Morais

MV, MS, PhD, DACVIM (Medicina Interna & Cardiologia)

Professor Titular e Diretor do Hospital Veterinário

Universidade Estadual do Oregon

 

Resumo: Nenhum caso novo de SARS-CoV-2 foi identificado em cães ou gatos na semana entre 9 e 16 de junho de 2020. Por outro lado, mais informações estão agora disponíveis para os dois casos de SARS-CoV-2 diagnosticados em gatos nos EUA na semana passada. Foi sugerido também que o vírus dificilmente se estabelecerá em populações de gatos domésticos. O número de reprodução básico (R0) do vírus em gatos foi estimado em 1,09. Com esse R0, é improvável que a transmissão de um gato para outro possa se sustentar em uma população felina. Como os dados utilizados para calcular o R0 foram baseados em uma prevalência superestimada, o R0 em gatos deve ser menor que 1. Uma doença com R0 < 1 dificilmente se estabelece na população e, se estabelecida, tende a diminuir gradualmente até desaparecer. Os resultados de um estudo coordenado por um grande grupo hospitalar nos EUA avaliando a ligação humano-animal durante a pandemia estão agora disponíveis. Colocar nossos cães e gatos em quarentena pode ter tido efeitos duradouros na maneira como as pessoas abordam a posse de animais de estimação e na interação entre pessoas e animais de estimação. Mais informações também foram disponibilizadas para o SARS-CoV-2 em outras espécies. O vírus foi identificado em mais duas fazendas de vison na Holanda. No total, 15 fazendas estavam contaminadas e todos os visons desses estabelecimentos foram abatidos. Foi também relatado que hamsters mais velhos são mais suscetíveis a Covid-19, apresentando mais sinais clínicos e lesões histopatológicas mais severas. Também foi demonstrado que a transferência passiva de anticorpos neutralizantes fornece proteção contra a inoculação intranasal com altas doses de SARS-CoV-2 em hamsters. Esse efeito é dose-dependente.

 

Abstract: No new cases of SARS-CoV-2 were identified in dogs or cats in the week between June 9 and 16, 2020. On the other hand, more information is now available for the two cases of SARS-CoV-2 diagnosed in cats in the USA last week. It has also been suggested that the virus is unlikely to establish itself in domestic cats. The basic reproduction number (R0) of the virus in cats was estimated at 1.09. With this R0, transmission from one cat to another is unlikely to be sustainable in a feline population. As the data used to calculate the R0 were based on an overestimated prevalence, the R0 in cats is likely less than 1. A disease with R0 <1 rarely gets established in a population, and if established, tends to gradually decrease in prevalence until it disappears. The results of a study coordinated by a large hospital group in the USA on the human animal bond during the pandemic is now available. The quarantining of our dogs and cats may have had lasting effects on the way people approach pet ownership and in the interaction between people and pets. More information has also been made available for SARS-CoV-2 in other species. The virus has been identified on two more mink farms in the Netherlands. A total of 15 farms were contaminated and all mink from these establishments were culled. It has also been shown that older hamsters are more susceptible to COVID-19 than younger ones. Older hamsters have more clinical signs and have more severe histopathological lesions. It is also possible to prevent infection in hamster using neutralizing antibodies. Passive transfer of antibodies provided protection against intranasal inoculation with high doses of SARS-CoV-2 in hamsters. This effect is dose-dependent.

 

Toda semana, mais informações estão disponíveis sobre o SARS-CoV-2 e os animais. Consequentemente, é necessária uma atualização constante do trabalho: “O novo coronavírus e animais de companhia 1 publicado em 5 de maio de 2020, e de suas atualizações em 11 de maio de 2020 2, 17 de maio de 2020 3, 25 de maio de 2020 4 , 1 de junho de 2020 5 e 9 de junho de 2020 6. O objetivo desta atualização é incluir as informações sobre SARS-CoV-2 e animais disponibilizadas entre 9 e 16 de junho de 2020.

 

Gatos

O que já sabíamos 1-6

– Gatos jovens e adultos podem ser infectados experimentalmente por via intranasal 7,8 ou em uma combinação de via intranasal, intratraqueal e ocular 7:

Gatos inoculados experimentalmente não desenvolvem sinais clínicos 7-9;

Eliminação de vírus é relativamente baixa 7, mas gatos, em condições experimentais, podem transmitir o vírus para outros gatos mesmo sem contato direto 7-9;

Excreção do vírus por via nasal pode durar até 10 dias 9;

Gatos experimentalmente infectados não podem ser reinfectados 28 dias da primeira infecção 9;

Gatos adultos experimentalmente infectados não desenvolvem alterações na radiografia torácica. Histopatologicamente, pode-se observar rinite linfoplasmacítica supurativa e ulcerativa moderada e traqueíte linfoplasmacítica leve, indicando que apesar de subclínica, a infecção não é completamente benigna9;

– Ocasionalmente, gatos podem adquirir a infecção de pessoas;

– O vírus já foi identificado em 6:

Vinte e dois gatos:

. 13 gatos foram positivos na RT-PCR; anticorpos neutralizantes foram identificados em 4 desses gatos;

. 9 foram negativos na RT-PCR e desenvolveram anticorpos neutralizantes;

. 9 gatos com sinais clínicos e 12 assintomáticos. Em um gato, não foram descritos sinais clínicos, mas o gato foi levado ao veterinário;

Cinco tigres:

. 2 tigres-malaios com sinais respiratórios;

. 3 tigres siberianos, 2 com sinais respiratórios e 1 assintomático;

. Foi divulgado o genoma do vírus SARS-CoV-2 que infectou o tigre no Zoológico do Bronx nos EUA 10. A sequência viral está depositada no GenBank do National Center for Biotechnology Information sob o número de acesso MT365033. A amostra é 100% similar a várias outras atualmente circulando em pessoas. É mais um caso de um animal infectado por uma pessoa com Covid-19;

Três leões africanos, todos com sinais respiratórios;

– Gatos naturalmente infectados podem ou não desenvolver sinais clínicos:

Sinais gastrintestinais e respiratórios já foram associados ao SARS-CoV-2 em gatos

– Gatos eliminam o vírus por via nasofaríngea e retal

– Gatos desenvolvem anticorpos neutralizantes

Em um estudo ainda não publicado em Wuhan, China, 11 de 102 gatos desenvolveram anticorpos neutralizantes contra SARS-CoV-2. Em apenas 3 o título de anticorpos foi ≥ 40 11. Consequentemente, pelo menos esses 3 gatos podem ser considerados expostos ao SARS-CoV-2;

Anticorpos contra o SARS-CoV-2 foram detectados em 7 de 24 gatos que viviam em duas das fazendas holandesas em que está ocorrendo um surto de Covid-19 em visons 12.

. É possível que esses gatos tenham adquirido o vírus dos visons 12.

 

O que aconteceu na última semana

Informações adicionais foram publicadas para os dois últimos gatos infectados por SARS-CoV-2 nos Estados Unidos. O gato diagnosticado no estado do Illinois era de uma família na qual existiam casos de Covid-19. O gato apresentou febre, lesões orais e ulcerações na língua. Nenhum organismo foi identificado no painel de PCR respiratório; o gato era negativo no exame de FIV e FeLV, e positivo no teste sorológico para o coronavírus entérico felino 13. Ele testou positivo para SARS-CoV-2 na RT-PCR e posterior sequenciamento do vírus 13. O gato diagnosticado no estado de Minnesota também pertencia uma família que tinha membros com Covid-19. Ele apresentou letargia, febre e sons pulmonares alterados 14. Mycoplasma felis foi encontrado no painel de PCR respiratório. A infecção por SAR-CoV-2 também foi confirmada por meio de RST-PCR e sequenciamento do vírus 14.

Os casos de infecção natural em gatos onde foi detectada a presença de antígenos ou anticorpos estão descritos na figura 1.

Figura 1 – Relatos de casos naturais de SARS-CoV-2 diagnosticado por identificação de anticorpos neutralizantes ou RNA viral por RT-PCR em gatos. Atualizado em 16/6/2020 (adaptado de 15)

 

Cães

O que já sabíamos 1-6

– Cães jovens podem ser infectados experimentalmente por via intranasal 8:

Cães jovens ou adultos são mais refratários à infecção que gatos 7,8:

. Não eliminaram o vírus por via orofaríngea. RNA viral foi encontrado em swabs retais de cães jovens;

– Vírus infectante não pode ser obtido dessas amostras:

RNA viral não foi encontrado em nenhum órgão na necropsia;

Cães desenvolveram anticorpos neutralizantes;

Não transmitiram a doença para outros cães;

– Cães podem ser mais resistentes à infecção por SARS-CoV-2 do que gatos porque têm pouca expressão do receptor ACE2 no trato respiratório. Mesmo que este receptor possa interagir com o SARS-CoV-2, a pouca expressão em órgãos que têm contato com o ambiente externo limita a possibilidade de iniciar o processo infeccioso 35;

– Infecção natural por SARS-CoV-2 foi identificada em apenas 5 cães 1-6,36-39:

Anticorpos neutralizantes estavam presentes nos 5, e em apenas 3 o RNA viral foi encontrado;

Dois dos cães RT-PCR positivo não apresentaram sinais clínicos 37. Eles desenvolveram anticorpos neutralizantes e em um desses cães foi possível isolar o vírus. Nos dois casos o genoma do vírus está disponível 37. O vírus desses cães teve homologia perfeita, ou quase perfeita (divergência em 3 nucleotídeos) com a dos tutores ou pessoas que viviam na mesma residência. As sequências virais das duas famílias foram diferentes, o que sustenta a suposição de que os cães foram infectados pelos tutores nos dois casos;

O terceiro cão RT-PCR apresentou sinais respiratórios com letargia severa associada com anemia hemolítica 38. Um dos tutores foi diagnosticado com Covid-19 e o outro apresentou sinais respiratórios. O outro cão da casa desenvolveu anticorpos neutralizantes, mas RNA do vírus não foi encontrado na RT-PCR 38,39;

O segundo cão soropositivo e negativo na RT-PCR apresentou problemas respiratórios, mas não se sabe se foram causados pelo SARS-CoV-2 36;

Três dos 5 cinco cães diagnosticados com SARS-CoV-2 são da raça pastor-alemão 37,39;

Foi descartado o diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2 como divulgado pela imprensa em 28 de abril de 2020 em um pug da Carolina do Norte 40,41. O diagnóstico final de infecção por SARS-CoV-2 em animais dos EUA só pode ser fornecido após confirmação pelo Laboratório Nacional de Serviços Veterinários do Departamento de Agricultura dos EUA. Os exames realizados nesse laboratório não encontraram o SARS-CoV-2 nas várias amostras testadas. Também não houve evidência de resposta imune no teste de neutralização do vírus 42. Consequentemente, esse cão nunca teve Covid-19. A fraca detecção de RNA viral por PCR pode ter sido resultado de contaminação ambiental ou contaminação do cão por uma das 3 pessoas com Covid-19 na casa.

 

O que aconteceu na última semana

É interessante que 3 dos 5 cinco cães diagnosticados com SARS-CoV-2 sejam da raça pastor-alemão 37,39. Isso pode ter sido coincidência em função do baixo número de cães afetados e porque dois desses cães moravam juntos 38. Por outro lado, pode estar associado com deficiência de IgA. A IgA desempenha um papel crucial na proteção das superfícies mucosas contra patógenos, neutralizando os vírus respiratórios ou impedindo sua ligação às células epiteliais e pode ser importante na neutralização inicial do SARS-CoV-2 43. Pastores-alemães têm alto risco de apresentar deficiência de IgA 44-46.

Os casos de infecção natural em cão nos quais foi detectada a presença de antígeno ou anticorpo estão descritos na figura 2.

Figura 2 – Relatos de casos naturais de SARS-CoV-2 diagnosticado por identificação do RNA viral por RT-PCR em cães. Atualizado em 16/06/20 (adaptado de 15))*

* O cão da Carolina do Norte 40,41 foi retirado da tabela porque o resultado não foi confirmado e a conclusão final é de que ele não foi infectado pelo SARS-CoV-2 42

 

Mustelídeos & grandes felídeos

O que já sabíamos 1-6

Ferrets podem ser infectados experimentalmente por via intranasal 8,47-49:

Podem desenvolver sinais clínicos ou permanecer assintomáticos 8,47-49;

Eliminam o vírus por via retal e orofaríngea;

Desenvolvem anticorpos neutralizantes;

Infectam outros ferrets por contato direto e indireto;

Reinfecção:

. Ferrets não desenvolvem doença pulmonar aguda quando reinfectados 50;

. Têm sinais clínicos leves, como letargia e voltam a excretar o vírus depois da reinfecção;

Dose – resposta:

. Quanto maior a dose do inóculo em ferrets 50:

.. Maior a carga viral excretada;

.. Maior a duração da excreção;

.. Mais severos os sinais clínicos 50;

 

– Infecção natural por SARS-CoV-2 foi identificada em visons 25,31,36,51:

Visons podem desenvolver sinais clínicos ou ter infecção assintomática:

. Sinais respiratórios, gastrintestinais, óbito;

. Fêmeas prenhas têm risco aumentado;

Surto em quatro fazendas de produção de visons:

. Morbidade e mortalidade baixas (entre 1,2 e 2,4 %; normal no período: 0,6%);

. Baixa da produção, perda de animais;

. Fêmeas prenhes têm risco maior;

. Transmissão entre animais direta e indiretamente;

. Vírus já está circulando nas granjas há várias semanas;

. Sequência genética do vírus nos visons é diferente das que estão circulando em pessoas na Holanda;

Alterações histopatológicas incluíram pneumonia intersticial difusa grave com hiperemia e dano alveolar 52:

. Culturas bacterianas foram negativas;

. RNA viral foi detectado na cavidade nasal, pulmões e em swabs faríngeos e retais. As maiores cargas virais foram obtidas nos swabs faríngeos 52;

 

A análise filogenética dos vírus nos visons:

. Sequências das 2 fazendas divergiram em 22 posições de nucleotídeos;

. Sequências de cada fazenda foram similares 52;

. Isso sugere que o vírus foi introduzido nas duas fazendas de forma independente e de fontes diferentes. O mais provável é que o vírus foi introduzido por pessoas diferentes em cada fazenda e se disseminou eficientemente entre os visons.

 

Transmissão entre visons:

. Ocorreu transmissão eficiente entre os visons. O vírus está circulando na fazenda há alguns meses;

. Os visons são mantidos em gaiolas individuais com uma partição não permeável entre as gaiolas. Assim, o contato direto não pode ter sido responsável pela transmissão 52;

. A transmissão indireta pode ter ocorrido por meio de fômites, por gotículas infecciosas geradas pelos animais infectados, por poeira contaminada da cama ou por uma combinação dessas opções:

.. Foi detectado RNA viral na poeira inalável transportada pelo ar nas fazendas de vison;

.. Poeira ou gotículas podem ter sido um dos meios de transmissão entre os visons;

 

Transmissão para pessoas:

. Pelo menos 2 trabalhadores em duas fazendas distintas foram infectados com o vírus que circula nos visons 12. O SARS-CoV-2 que circula entre os visons já é geneticamente distinto dos vírus que circulam entre pessoas na Holanda;

. Medidas sanitárias estão sendo estendidas a todas as granjas de visons na Holanda:

.. Incluem proibição de transporte de visons e de seu estrume, controle de visitação, controle de entrada e saída de outros animais das granjas (cães, gatos e ferrets) e incremento dos protocolos de higiene 31;

.. O risco à saúde pública a longo prazo depende de se o vison pode se tornar uma fonte permanente de reinfecção de seres humanos e animais 31. Isso está sendo examinado epidemiologicamente nas três primeiras granjas infectadas;

.. As fazendas de visons na Holanda estão sendo rastreadas sorologicamente para SARS-CoV-2, porque é possível que possam estar ocorrendo apenas infecções subclínicas em algumas granjas 12;

. A eutanásia dos visons nas 15 fazendas nas quais existe Covid-19 nos animais se iniciou no dia 6 de junho de 2020 53:

.. O abate é considerado necessário devido ao risco de transmissão às pessoas e à possibilidade de os visons se tornarem um reservatório para o vírus.

 

O que ocorreu na última semana

Visons

Até agora, a Holanda é o único país em que o SARS-CoV-2 foi diagnosticado em visons. Embora apenas dois dos quase 50.000 casos confirmados de Covid-19 da Holanda tenham sido associados às fazendas, o governo decidiu abater os animais porque o problema poderia se agravar com o nascimento de filhotes em abril e maio 54. O número de animais aumenta 6 vezes nesta época do ano e os filhotes se tornariam suscetíveis assim que diminuísse a concentração de anticorpos maternos. A introdução de uma grande população de animais suscetíveis dificultaria em muito a eliminação da doença nas propriedades 53. O abate ocorreu entre 6 e 13 de junho de 2020 e mais de 570.000 animais foram abatidos nas 15 fazendas afetadas 55.

Os casos de infecção natural em outras espécies nas quais foi detectada a presença de antígeno estão descritos na figura 3.

Figura 3 – Relatos de casos naturais de SARS-CoV-2 diagnosticado por identificação do RNA viral por RT-PCR em outras espécies. Atualizado em 16/6/20

 

Outras espécies

O que já sabíamos 1-6

– As seguintes espécies podem ser infectadas experimentalmente:

Hamster 61-63:

. Inoculados por via intranasal, apresentam sinais, desenvolvem anticorpos neutralizantes e transmitem para outros hamsters por contato direto e indireto

. A transmissão é mais eficaz por aerossóis e gotículas do que por fômites;

 

Coelhos 64,65:

. Detalhes sobre o estudo ainda não estão disponíveis;

 

Macaco-rhesus (Macaca mulatta) 66-72:

. Inoculados por via intranasal, intratraqueal, oral e ocular, apresentam sinais e desenvolvem anticorpos neutralizantes;

. Não podem ser reinfectados algumas semanas após a exposição inicial;

. Infecção por SARS-CoV-2 induz imunidade protetora contra a reexposição em macacos-rhesus;

 

Macaco-cynomolgus (Macaca fascicularis) 67,73:

. Inoculados por via intratraqueal e conjuntival, apresentam sinais e desenvolvem anticorpos neutralizantes

 

Macaco-verde-africano (Chlorocebus aethiops) 74:

. Inoculados por via intranasal e intratraqueal, apresentam sinais leves e desenvolvem anticorpos neutralizantes;

. Vírus infectante foi identificado em amostras nasais e no lavado traqueal de todos os 6 animais, nas amostras orais de 3, e fecais de 1 macaco;

 

Sagui (Callithrix jacchus) 67:

. Inoculados por via intranasal, não apresentam sinais clínicos; não se sabe se desenvolvem anticorpos neutralizantes. Mais resistentes à infecção experimental do que macaco-rhesus e macaco-cynomolgus 67;

 

Morcego-das-frutas-egípcios (Rousettus aegyptiacus) 75:

. Inoculados por via intranasal desenvolvem infecção com rinite. Vírus foi detectado na cavidade nasal, traqueia, pulmão e no tecido linfático associado ao pulmão;

. Transmitem para outros morcegos;

. Apresentaram um quadro compatível com o de uma espécie reservatório;

 

Musaranho-das-árvores (Tupaia belangeris):

. Infectados experimentalmente com o SARS-CoV-2 por via intranasal 76;

. Pouco suscetíveis a infecção desenvolvendo apenas febre;

. A excreção viral é baixa e ocorreu replicação em tecidos 76.

 

As seguintes espécies não puderam ser infectadas experimentalmente por via intranasal:

Camundongos 77;

 

Porcos 8,75:

. Como os cães, os porcos podem ser resistentes à infecção por via intranasal com SARS-CoV-2 por terem mínima expressão do receptor ACE2 no trato respiratório 35;

. Diferentemente do cão, porcos têm alta expressão da ACE2 no duodeno. Essa expressão no intestino pode representar uma possível via alternativa para a entrada viral. Isso ainda não foi estudado;

 

Galinhas 8,75;

 

Patos 8.

 

O que ocorreu na última semana

Suscetibilidade à infecção e proteção

A mortalidade hospitalar em pacientes humanos com Covid-19 aumenta com a idade 78. Um estudo com hamsters avaliou a infecção experimental com SARS-CoV-2 em hamsters de diferentes idades 79. A replicação do vírus no trato respiratório superior e inferior foi independente da idade dos animais. No entanto, hamsters mais velhos exibiram maior perda de peso. Hamsters mais jovens apresentaram uma resposta imune mais precoce e mais intensa, enquanto as lesões histopatológicas foram mais severas em hamsters mais velhos 79.

Também foi demonstrado que a transferência passiva de anticorpos neutralizantes fornece proteção contra inoculação intranasal com altas doses de SARS-CoV-2 em hamsters 80. Esse efeito foi dose-dependente 80. O estudo sugere que possa existir um papel dos anticorpos transferidos na profilaxia e potencialmente na terapia do Covid-19.

 

Transmissão

O que já sabíamos 1-6

Transmissão intraespécie:

As seguintes espécies transmitem o vírus experimentalmente para outros membros da mesma espécie:

. Gatos 7-9;

. Ferrets 8,47,48,75;

. Hamsters 61-63;

. Morcego das frutas egípcios (Rousettus aegyptiacus) 75;

Os visons transmitem o vírus para outros visons em condições naturais 52;

 

– Transmissão interespécies:

Transmissão interespécies não-humanas está sendo considerada entre visons e gatos 12,31,36;

– Transmissão de animais para pessoas:

É possível que dois funcionários de empresas de vison infectados com SARSCoV-2 tenham sido infectados por um vison 12,31,36;

 

– Transmissão por animais imunossuprimidos:

A eliminação de vírus infectante por via nasal durou mais em ferrets tratados com azatioprina do que nos não tratados 49;

 

– Transmissão por fômites:

A transmissão por fômites é menos eficiente do que por contato direto ou indireto em hamsters 63;

 

– Prevenção da transmissão com o uso de máscaras:

Máscara cirúrgica:

. Um estudo demonstrou que a inclusão de máscaras cirúrgicas entre as gaiolas de hamsters diminui a transmissão de SARS-CoV-2 de hamster de uma gaiola para os hamsters nas outras 60

 

Máscara de tecido:

. Um estudo demonstrou que máscaras de tecido preveniram a contaminação de camundongos livres de patógenos por partículas pequenas 81:

.. Foram utilizados sprays com suspensão bacteriana borrifada nos camundongos protegidos ou não por uma barreira de algodão 100%. Essa barreira simulou o uso apropriado de uma máscara de tecido. O modelo com spray com bactérias simula o que aconteceria quando uma pessoa espirra e pode ser extrapolado para o que acontece com vírus respiratórios.

 

O que ocorreu na última semana

Transmissão intraespécie

O risco de transmissão de SARS-CoV-2 entre gatos foi estimado matematicamente 82. A estimativa se baseou nos dados do estudo sorológico realizado em Wuhan, China, considerando uma prevalência de 15% de infecção por SARS-CoV-2 na população felina 11. Naquele estudo, amostras positivas foram obtidas de 3 gatos de tutores com Covid-19, 6 gatos atendidos em clínicas veterinárias e 7 gatos de rua 11. O número de reprodução básico R0 nesse cenário foi de 1,09 com intervalo de confiança de 95% entre 1,05 e 1,13 82. R0 ou o número de reprodução é um termo matemático que indica o quão contagiosa é uma doença infecciosa e indica o número médio de animais que contraem uma doença contagiosa de um animal com essa doença. Com um R0 de 1,09, cada gato infectado seria capaz de infectar 1,09 gatos. O valor obtido em gatos é muito menor que o R0 relatado para humanos e próximo a um. Com esse R0, é improvável que a transmissão de um gato para outro possa se sustentar em uma população felina 82. Vale a pena lembrar que a prevalência real no estudo sorológico de Wuhan é muito menor do que 15%. Apenas 11 dos 15 gatos positivos no ELISA foram também positivos no teste de neutralização viral. E destes, apenas 3 tinham títulos de anticorpos igual ou maior do 1:40 11. Muitos consideram que apenas esses 3 gatos seriam positivos 6,83. Isso resultaria em uma prevalência de 3% e um R0 inferior a 1. Quando o R0 é menor que 1, cada infecção existente causa menos de uma nova infecção. Nesse caso, a doença nunca se estabelece, e se estabelecida, diminuirá e eventualmente desaparecerá. Esse parece ser o caso com a Covid-19 em gatos.

 

Ligação ser humano-animal

Um estudo do grupo Banfield Pet Hospital avaliou o impacto das pessoas terem ficado mais tempo em casa com seus animais durante várias semanas na pandemia de Cocid-19 84. Os principais resultados sugerem que colocar em quarentena nossos cães e gatos pode ter efeitos duradouros na maneira como as pessoas abordam a relação com animais de estimação:

– Saúde dos animais:

84% dos tutores se sentem mais sintonizados com a saúde de seu animal;

67% planejam fazer alterações na forma como cuidam dele;

47% das pessoas irão passar mais tempo com seus animais de estimação quando estiverem em casa;

21% ajustarão a sua programação para ficar em casa com seus animais de estimação com mais frequência;

10% planejam adotar outro animal de estimação para fazer companhia a seu cão ou gato;

33% dos tutores dizem que seu animal de estimação ganhou peso durante a quarentena;

42% estão exercitando seus animais de estimação mais do que antes da pandemia;

 

Ligação ser humano-animal:

65% dos tutores têm demonstrado aumento de afeto para com seus animais;

Para 45% das pessoas, a felicidade da família aumentou agora que eles passam mais tempo com seus animais;

Para 39% os animais de estimação ajudaram a diminuir a ansiedade e incerteza causadas pela pandemia;

38% acreditam que seus animais de estimação parecem mais felizes e 35% acreditam que eles estão mais divertidos durante esse período;

33% das pessoas se sentem mais sintonizadas com seus cães ou gatos do que antes do início da pandemia;

47% dos tutores de cães e 51% dos tutores de gatos revelaram que estão conversando mais com eles do que antes da pandemia.

 

– Trabalho

20% preferem trabalhar na companhia de seus animais mais do que na de seus colegas de trabalho;

73% das pessoas estão preocupadas em voltar ao trabalho na empresa e passar mais tempo longe de seus animais;

59% se preocupam que seu cão ou gato possa sofrer de ansiedade de separação assim que o novo horário de trabalho começar.

 

Referências

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03-DE MORAIS, H. A. O novo coronavírus e os animais de companhia – Atualização de 17 de maio de 2020. 17-05-2020. Disponível em: https://www.revistaclinicaveterinaria.com.br/blog/atualizacao-17-de-maio-de-2020-o-novo-coronavirus-e-os-animais-de-companhia/>. Acesso em 18 de maio de 2020.

04-DE MORAIS, H. A. O novo coronavírus e os animais de companhia – Atualização de 25 de maio de 2020. 25-05-2020. Disponível em: <https://www.revistaclinicaveterinaria.com.br/blog/novo-coronavirus-animais-de-companhia-atualizacao-25-maio-2020/>. Acesso em 30 de maio de 2020.

05-DE MORAIS, H. A. O novo coronavírus e os animais de companhia – Atualização de 1 de junho de 2020. 25-05-2020. Disponível em: <https://revistaclinicaveterinaria.com.br/blog/covid-19-animais-de-companhia-atualizacao-1-6-2020/>. Acesso em 8 de junho de 2020.

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