Como a atuação de médicos-veterinários em desastres pode auxiliar na transformação de um município

Introdução

Os seres humanos e os animais têm uma longa história juntos: a convivência entre cães e homens, por exemplo, data de mais de 12 mil anos 1. Enfrentar eventos calamitosos sempre foi fundamental desde a origem da nossa espécie. Há episódios históricos de inundações, erupções vulcânicas, secas e outros fenômenos generalizados que assolaram a civilização 2.

Perante uma eventualidade, é sabido que os seres humanos não são muito inclinados a tomar medidas de autoproteção, e isso se intensifica quando são impedidos de levar seus animais em um momento de evacuação 3.

Relato de vivência

Desastres podem ser descritos como ocorrências excepcionais de grande seriedade que podem ocasionar graves distúrbios a uma população, econômicos ou ambientais, além de perdas de vidas, e resultam de uma combinação de fragilidades e ameaças 4.

O Polígono da Secas é uma região do Nordeste brasileiro que apresenta como principal característica longos períodos de estiagem; na Bahia, compreende uma área localizada a aproximadamente 430 km de distância da capital, Salvador 5, e em 2019 foi acometido por uma precipitação de chuvas jamais registrada anteriormente.

No dia 11 de julho de 2019, os municípios de Pedro Alexandre e Coronel João Sá emitiram um alerta para a possibilidade de rompimento de uma barragem de armazenamento de água. Naquele mesmo dia ocorreu um transbordamento que gerou uma enorme inundação, desabrigando 320 famílias (não houve vítimas humanas fatais). A maioria dos afetados não conseguiram salvar suas mobílias e pertences (Figura 1), porém optaram por salvar parentes e animais de estimação e criação.

 

 

No dia 13 de julho, uma equipe de voluntários de resgate animal, apoiada pelo CRMV-BA e pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (FNPDA), chegou à localidade de Pedro Alexandre, encontrando a população afetada em choque e extremamente preocupada com o salvamento de seus animais, alguns dos quais haviam sido resgatados por um morador da própria da região – já que não era comum a atuação de médicos-veterinários ali e que a presença dos voluntários era algo até então inédito.

A população de ambas as cidades afetadas pela inundação demonstrava total desconhecimento acerca das necessidades básicas de seus animais de estimação, como fornecimento de alimentos de qualidade, vacinação e posse responsável. A grande maioria dos cães e gatos eram semidomiciliados ou errantes. Algumas residências possuíam pequenas criações de cágados, caprinos, equídeos e pássaros silvestres. Era possível observar pelas ruas muitos animais apresentando quadros de tumor venéreo transmissível e de mama. As fêmeas, quando gestantes, geralmente têm o parto nas ruas, e seus filhotes são abandonados; muitas vezes são submetidas a métodos contraceptivos químicos que podem causar problemas futuros, tais como piometra, hiperplasia mamária, aborto e tumores.

Poucas carcaças foram encontradas pela equipe de resgate, pois a maioria delas haviam sido removidas pela população. Assim, não foi possível obter a estatística do número de indivíduos que vieram a óbito durante a inundação. 

Uma pocilga clandestina foi encontrada às margens do rio Peixe (Figura 2). Nela havia 108 suínos, 4 cães, 100 gatos, urubus e galinhas. As condições higiênico-sanitárias eram péssimas, com presença de ossos espalhados por todo o local, oferecendo um risco de contaminação por botulismo, sendo a alimentação de todas as espécies composta basicamente de restos alimentares, penas e carcaças de aves sem fervura. Não havia utilização de nenhum tipo de equipamento de proteção individual (EPI) pelas pessoas que transitavam pelo local ou nele trabalhavam.

 

 

Os animais eram destinados à venda ainda na fase de crescimento. Se porventura algum animal viesse a óbito na pocilga, sua carne era consumida independentemente da causa mortis.  Nesse local a água chegou até a altura do teto do abrigo dos porcos, que conseguiram escapar por uma cerca que fora cortada por um de seus tutores. Quando a água baixou, os animais retornaram a ele em busca de alimento.

A barragem não era de responsabilidade de nenhuma empresa específica, portanto os recursos para a realização dos trabalhos de resgaste (dinheiro, medicamentos, alimentos e vacinas) foram adquiridos exclusivamente por meio de doações de pessoas e de algumas empresas do ramo pet.

 

 

Os animais receberam atendimento médico-veterinário nos locais onde havia possibilidade e necessidade: em casas ainda habitadas, nos abrigos e até mesmo nas ruas. Foram administradas medicações contra endo e ectoparasitas a fim de prevenir as zoonoses veiculadas pela água. Cães e gatos receberam ainda vacinas polivalentes (déctupla e quíntupla, respectivamente) e antirrábica (esta fornecida pela Secretaria Estadual de Saúde) (Figura 3). A alimentação foi possível graças à distribuição de ração para cães, gatos e pássaros. Grande parte dos animais encontravam-se com aspecto caquético e apresentavam sinais de gastrenterite, dermopatias, conjuntivite e escoriações, entre outros (Figura 4).

 

 

Além dos animais vitimados pela tragédia, outros passaram a ser atendidos pela equipe de médicos-veterinários, já que seus tutores procuravam por ajuda devido à escassez de profissionais e de recursos nas regiões adjacentes (Figuras 5 e 6).

 

Os cães foram atendidos em maior número, seguidos dos gatos, galinhas, suínos, jabutis, passeriformes, ovinos, caprinos, equinos e asininos (Figura 7). Entre os procedimentos realizados, a vacinação e a castração foram os mais numerosos (Figura 8).

 

 

Duas semanas após a ocorrência da enchente, realizou-se um mutirão de castração que contou com a colaboração de uma equipe de voluntários médicos-veterinários – cirurgiões, anestesistas e estudantes de medicina veterinária (Figura 9). Durante três dias de ação, foram realizados 116 procedimentos de esterilização em cães e gatos, machos e fêmeas. Apenas uma operação foi cancelada devido a intercorrência na indução anestésica de uma gata. Uma única cadela apresentou um quadro de hemorragia difusa, que foi controlado; em seguida, ela foi submetida a transfusão de sangue. Não houve registro de óbitos, exceto de um filhote de cão que apresentava um grave quadro anêmico no dia da triagem e de um porquinho-da-índia.

 

 

A equipe de voluntários ficou na região durante 17 dias e se alojou em locais distintos: uma parte na residência de uma moradora protetora de animais, que tinha sob sua tutela quatro cães vítimas de maus-tratos ou abandono, e outra parte em prédios de órgãos da Prefeitura de Pedro Alexandre. Havia um ponto de apoio na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, onde se realizavam reuniões de planejamento das ações a serem executadas e onde as rações foram armazenadas.

Em relação à pocilga clandestina, a equipe de médicos-veterinários trabalhou baseada no conceito de Saúde Única, com a colaboração da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), e auxiliando os órgãos de saúde dos municípios. Uma nova pocilga foi providenciada pela prefeitura e pelas secretarias municipais de Meio Ambiente e de Agricultura para a transferência dos animais. Foram realizadas modificações no recinto de acordo com as normativas vigentes, com a ajuda de zootecnistas e de um médico-veterinário de Maceió (AL), que atuaram em Coronel João Sá representando o CRMV/AL (Figura 10). Também foram propostas adaptações visando o bem-estar animal.

 

 

Após a conclusão da primeira fase de mudanças, duas fêmeas gestantes foram transferidas ao novo recinto, onde ocorreu o nascimento de leitões. Soluções sustentáveis foram apresentadas ao prefeito, como a instalação de um biodigestor que aproveitará as fezes dos animais. Sugeriu-se um treinamento dos tratadores da pocilga sobre noções básicas de produção, para que eles realizem o manejo correto da alimentação ofertada aos animais e lhes proporcionem melhores condições higiênico-sanitárias, uma vez que os suínos são criados para posterior consumo humano. Desse modo, ficou patente a necessidade urgente de um técnico agrícola no quadro da Secretaria de Agricultura e de Meio Ambiente para acompanhar casos como esse.

Um mês após a passagem da equipe de médicos-veterinários pelo local, os órgãos estaduais promoveram um curso de suinocultura no auditório da Câmara Municipal.

Em agosto de 2019, a equipe retornou à região para aplicar mais uma dose do protocolo vacinal de cães.

Após as ações realizadas pelos médicos-veterinários na região acometida pela tragédia, os tutores sentiram-se extremamente gratos e com a esperança renovada ao presenciarem os cuidados e o carinho da equipe para com os seus animais após o traumático episódio de perderem tudo o que possuíam.

Considerações finais

Se não houver um grupo de resgaste animal bem preparado e coordenado, o salvamento durante a ocorrência de um desastre pode se tornar bastante complexo, já que nesses eventos geralmente se priorizam o resgate e o salvamento de seres humanos em detrimento do dos animais. Porém, de acordo com a Constituição Federal de 1988, é dever do poder público e da sociedade defender um meio ambiente ecologicamente equilibrado, e isso se dá a partir da proteção da fauna e da flora. Portanto, a proteção dos animais em situações calamitosas é extremamente importante e deve ser tão priorizada quanto a proteção de seres humanos.

Na ocorrência de um desastre, o médicoveterinário é um profissional de extrema importância, pois ele é capaz de elaborar um plano de contingência para a evacuação e o resgaste de diferentes espécies, bem como para o atendimento clínico e emergencial dos indivíduos atingidos.

Referências

1-FINKELSTEIN, S. I. High noon for animal rights law: the coming showdown between pet owners and guardians. Bellwether Magazine, v. 1, n. 62, p. 18-21, 2005.

2-McCARTHY, M. ; BIGELOW, J. ; TAYLOR, M. Emergency preparedness and planning for animals: a case study in the Blue Mountains, NSW. Australian Journal of Emergency Management, v. 33, n. 4, p. 50-56, 2018.

3-RAI, P. ; KHAWAS, V. Traditional knowledge system in disaster risk reduction: exploration, acknowledgement and proposition. Jàmbá – Journal of Disaster Risk Studies, v. 11, n. 1, p. 484, 2019. doi: 10.4102/jamba.v11i1.484.

4-DU, Y. ; DING, Y.; LI, Z.; CAO, G. The role of hazard vulnerability assessments in disaster preparedness and prevention in China. Military Medical Research, v. 2, p. 27, 2015. doi: 10.1186/s40779-015-0059-9.

5-SEI – SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. Sobre Região Semiárida. Salvador: SEI. Disponível em: <https://www.sei.ba.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2602&Itemid=663>. Acesso em 25 de outubro de 2019.

 

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